Brasil "Tragédia entrará na conta dos negacionistas", diz diretor do Butantan

12:57  01 março  2021
12:57  01 março  2021 Fonte:   dw.com

Butantan e Fiocruz: da peste bubônica à covid, 120 anos de história

  Butantan e Fiocruz: da peste bubônica à covid, 120 anos de história Os dois institutos que estão hoje no epicentro da produção nacional de vacinas nasceram em um mesmo contexto de urbanização e imigração crescentes no início do século 20. © Colecao Werner Haberkorn/Acervo Museu Paulista Instituto Butantan nasceu na virada do século na Fazenda Butantan, na zona oeste de São Paulo Já fazia alguns meses que o medo da peste bubônica assombrava o Brasil, sobretudo por conta de relatos vindos de Portugal, que enfrentava a epidemia naquele ano de 1899. Em 18 de outubro oficialmente foi reconhecido que a doença já se alastrava em Santos, chegada via algum navio europeu.

Diretor do Instituto Butantan diz que, se não fosse governo, Brasil já teria vacina desde dezembro, e aponta obscurantismo científico das autoridades como responsável direto por nova onda explosiva de covid-19.

Brasil vive no momento a maior média móvel de mortes da pandemia © Bruno Kelly/REUTERS Brasil vive no momento a maior média móvel de mortes da pandemia

Fazia exatamente três anos que o médico hematologista Dimas Tadeu Covas estava à frente do Instituto Butantan quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o mundo vivia uma pandemia: a de covid-19.

Na corrida aberta em busca de uma vacina, ele apostou em um parceria internacional que, meses à frente, se revelou minimamente eficaz: em janeiro de 2021, a campanha de imunização brasileira começou justamente com produto desse acordo, no caso a vacina Coronavac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac.

Brasil tem quase 30 fábricas de vacina para gado e só 2 para humanos

  Brasil tem quase 30 fábricas de vacina para gado e só 2 para humanos Para o Instituto Butantan, retomada do investimento na produção nacional evitaria tamanha dependência de importações numa pandemia. Mas há quem argumente que é mais barato e vantajoso para o Brasil importar insumos e vacinas da China e da Índia do que tentar garantir a autossuficiência.Enquanto na década de 1980, o Brasil tinha pelo menos cinco institutos capazes de produzir vacinas, atualmente, há apenas dois em operação: Bio-Manguinhos, da Fiocruz, e o Instituto Butantan.

No momento em que o Brasil vive seu pior momento desde o início da pandemia, com mais de 250 mil mortos e hospitais operando no limite de suas capacidades, Covas diz que "a interferência política na saúde pública tem sido uma grande barreira para o combate adequado à epidemia e explica muito a posição do Brasil como vice-campeão mundial em mortes pelo covid-19".

"A negação da gravidade de pandemia, a disseminação de tratamentos sem comprovação científica, o combate deliberado ao uso de máscaras e as medidas de restrição de circulação são os grande responsáveis, nesse momento, pela segunda onda explosiva que o país está sofrendo”, diz ele. "A história colocará essa tragédia na conta desses negacionistas".

O Instituto Butantan é uma entidade pública ligada ao governo estadual paulista. Nos bastidores da crise com o governo federal estão os dividendos políticos de dois protagonistas do cenário político brasileiro: o governador de São Paulo, o tucano João Doria — que desde o princípio busca para si o capital político da vacina do Butantan — e o presidente da República Jair Bolsonaro — que em diversos episódios buscou difamar o imunizante.

10 perguntas para João Gaabbardo

  10 perguntas para João Gaabbardo “O paulista paga antecipado para que o Brasil possa ser imunizado”DINHEIRO – São Paulo tem sido responsável pelo fornecimento da maioria das vacinas no Brasil.

O diretor do Butantan, contudo, frisa que à despeito dessa batalha, o instituto paulista "continuará como o principal fornecedor [de vacinas ao Ministério da Saúde] por muito tempo ainda”.

DW Brasil: Há um ano, o Brasil teve o primeiro caso oficialmente registrado de covid-19. Desde essa época, estava aberta uma corrida mundial pelo desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus. Quando o Butantan decidiu procurar um parceiro para a produção de vacinas?

Dimas Tadeu Covas: O Instituto Butantan mantém-se alerta para o surgimento de epidemias, inclusive participa de organismos internacionais como o CEPI [Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias] cujo objetivo maior é a preparação para o enfrentamento de epidemias. Com o surgimento da epidemia de covid-19, imediatamente iniciamos o trabalho de prospecção de vacinas e de rotas tecnológicas para a sua produção. Neste caminho, já tínhamos conhecimento prévio da Sinovac, [empresa] que visitamos em 2019 e da qual também recebemos uma visita para discutirmos cooperação em vacinas. Já existindo esse aproximação e considerando que a Sinovac já tinha uma vacina em desenvolvimento em cuja tecnologia [de vírus inativado] temos experiência, nada mais apropriado. A parceria foi firmada preliminarmente em maio e assinada em junho do ano passado. O acordo, amplo, incluía o desenvolvimento de estudo clínico de fase 3 para a vacina no Brasil.

Butantan perde prazo para apresentar dados da CoronaVac à Anvisa

  Butantan perde prazo para apresentar dados da CoronaVac à Anvisa Sobre produção de anticorpos. Requisito para manter aprovação. Do uso emergencial da vacina. Instituto solicita nova dataA CoronaVac recebeu autorização para uso emergencial com a condição de enviar dados adicionais sobre a produção de anticorpos em determinados grupos do estudo. O Butantan não apresentou as informações no prazo, que se encerrou no domingo (28.fev).

Na época em que foi firmada essa parceria, como o senhor avaliou os riscos — no sentido de a vacina não se demonstrar eficaz ou viável? Houve momentos em que conviveu com dúvidas se daria certo a parceria, se os resultados viriam?

A parceria foi firmada já com o conhecimento dos resultados preliminares das fases pré-clínica e clínica de fase 1 e 2. Os resultados promissores nos animaram para prosseguir para a fase 3, que seria importante para a vacina em termos mundiais. Obviamente, todo estudo científico pode não ter resultados de acordo com o desejado, mas sempre acreditamos e trabalhamos duramente para conseguir realizar o estudo no menor tempo possível e com o maior rigor necessário para demonstrar a utilidade da vacina no combate ao covid-19. Riscos são inerentes a todo processo inovador e o cientista e gestor responsável deve avaliar corretamente e assumir estes riscos, principalmente quando se trata da vida de milhões de pessoas. Assumimos o risco e felizmente hoje temos uma excelente vacina que é a base do programa nacional de imunização nesse momento.

CoronaVac tem baixa ação neutralizante contra cepa de Manaus, diz estudo

  CoronaVac tem baixa ação neutralizante contra cepa de Manaus, diz estudo Variante "escapa" dos anticorpos. Cientistas falam em dose de reforçoEis a íntegra, em inglês (4 MB).

Em que momento o senhor teve a certeza de que a vacina desenvolvida pela empresa Sinovac funcionaria?

No momento em que recebemos os resultados dos estudos pré-clínicos e clínicos de fase 1 e 2 que já demonstravam o grande potencial da vacina. Passou-me pela cabeça a grande oportunidade de contribuirmos de forma positiva para dotar o Brasil de uma alternativa viável e tornar-se autossuficiente nessa vacina no momento do maior desafio que o país enfrentava em termos de saúde pública

Como o senhor avalia o movimento antivacina, que já era grande antes da pandemia e agora tem sido turbinado com teorias conspiratórias sobre as vacinas? Como conscientizar as pessoas da importância da vacinação?

O movimento antivacina no Brasil era incipiente até muito recentemente. A postura de autoridades federais negando a sua utilidade e, inclusive, usando de uma campanha subterrânea de fake news e mentiras a respeito da vacina e da própria pandemia vieram a alimentar esse movimento. Recentemente, no entanto, com o início da vacinação, esse movimento sofreu um grande revés e hoje a procura e o apoio à vacina é muito grande. Ao contrário do que alguns esperavam, a vacina se tornou assunto nacional com grande apoio popular que se traduziu inclusive em manifestações da cultura popular como o rap [funk Vacina Butantan, de Mc Fioti].

Anvisa aprova mudança do frasco da vacina CoronaVac

  Anvisa aprova mudança do frasco da vacina CoronaVac Fraco atual comporta 6,2 ml. Agora, poderá ser de 5,7 ml. Medida visa a evitar desperdícioReceba a newsletter do Poder360

O senhor declarou à Folha de S. Paulo que nunca existiu interferência política tão grande na saúde pública quanto agora. Como lidar com essas pressões?

A interferência política na saúde pública tem sido uma grande barreira para o combate adequado à epidemia e explica muito a posição do Brasil como vice-campeão mundial em mortes pelo covid-19. A negação da gravidade de pandemia, a disseminação de tratamentos sem comprovação científica, o combate deliberado ao uso de máscaras e as medidas de restrição de circulação são os grande responsáveis, nesse momento, pela segunda onda explosiva que o país está sofrendo e que vai se agravar pela presença da chamada variante P1. Esse obscurantismo científico das mais altas autoridades do país causou um dano irreversível ao país, que ultrapassou as 250 mil mortes, uma catástrofe sem precedentes. A história colocará essa tragédia na conta desses negacionistas. Para o cientista preocupado e engajado como eu nessa luta resta, além de apontar esses absurdos, trabalhar em todas as frentes para minorar o sofrimento da população, inclusive na frente da comunicação e na batalha política da ciência.

A relação com o Ministério da Saúde deveria ser melhor? O que precisaria ser feito para aparar as arestas, principalmente considerando que vivemos uma pandemia?

O Instituto Butantan é o principal fornecedor de vacinas e soros para o Ministério da Saúde, e o nosso relacionamento sempre foi excelente. O ponto fora da curva aconteceu nesse governo que vem negando, por motivos políticos e obscurantistas, essa importância. A despeito dessas barreiras que ocorreram esse ano passado e nesse ano, o Instituto Butantan continua cumprindo o seu papel e é o responsável pelo fornecimento das vacinas para covid-19 que permitiram o inicio da vacinação no Brasil. Sem o Butantan o Brasil não teria vacinado mais de 7 milhões de pessoas. O Butantan entregou mais de 12 milhões de doses até esse momento ao Ministério e continuará como o principal fornecedor por muito tempo ainda.

Por que a aposta do Butantan foi no sentido de firmar uma parceria internacional em vez de desenvolver uma própria vacina?

O Butantan tem três vacinas [contra covid] em desenvolvimento, mas optou pela parceria inicial para ganhar tempo na incorporação da vacina e permitir o acesso do Brasil mais rapidamente. Não tivéssemos tido os problemas de relacionamento com o governo federal, teríamos vacinas disponíveis desde dezembro de 2020.

Essas vacinas em desenvolvimento não chegarão tarde demais?

As vacinas que o Butantan desenvolve terão seu papel nesta pandemia visto que se prevê que ela venha a se tornar endêmica e possivelmente sazonal como a influenza. Trabalhamos nessa perspectiva e, em 2022, teremos vacina totalmente feita aqui, adicionalmente à vacina feita em parceria com a Sinovac.

Autor: Edison Veiga

O sistema de saúde brasileiro à beira do colapso .
Apesar de repetidos alertas de especialistas, o Brasil caminha para semanas catastróficas da pandemia, como numa tragédia anunciada. Pressão por lockdown se intensifica. © Fabio Teixeira/ZUMA Wire/picture alliance UTI no Rio: vários estados estão vendo leitos se esgotarem O Brasil vive atualmente o momento mais crítico da pandemia. Tanto o número diário de mortes quanto a média móvel (dos últimos sete dias) bateram recordes, e a taxa de ocupação das UTIs já está acima de 80% em 19 das 27 unidades federativas. A tendência, afirmam especialistas, é a situação piorar.

usr: 5
Isto é interessante!