Brasil Preocupação com causas ambientais e sociais nas empresas aumenta o volume de 'emissões verdes'

19:02  03 maio  2021
19:02  03 maio  2021 Fonte:   estadao.com.br

Emissões de carbono são maiores do que países reportam, aponta estudo

  Emissões de carbono são maiores do que países reportam, aponta estudo Emissões de carbono são maiores do que países reportam, aponta estudoWASHINGTON (Reuters) - Cientistas anunciaram nesta segunda-feira que detectaram uma grande diferença, igual ao valor aproximado de emissões anuais dos Estados Unidos, entre a quantidade de emissões que causam o aquecimento global reportada por países e a quantidade que chega à atmosfera de acordo com modelos independentes.

A pandemia da covid-19 sensibilizou o lado social das empresas e impulsionou o debate sobre o que tem sido feito sobre o tema, levando o ano de 2020 a bater o recorde de dinheiro levantado para causas sociais. Por consequência, foi um ano de "virada" para a discussão do tema ESG (sigla em inglês para os aspectos ambiental, social e de governança), que já estava em discussão há alguns anos. O resultado é que em alguns bancos as emissões sustentáveis de dívida foram maiores em janeiro e fevereiro deste ano do que em 2020 inteiro, mostrando a preocupação com as questões sociais também entre os investidores.

"Temos diversos contatos com ONGs e elas falam em recordes de doação em 2020, sentimento que é reforçado com os clientes. Esse movimento, até então, não era tão recorrente em termos de número de clientes nem tão relevante em termos de volume", aponta Mariana Oiticica, sócia do BTG Pactual e corresponsável pela área de Investimento de Impacto e ESG.

Justiça alemã considera insuficientes os esforços de governo de Merkel na área climática

  Justiça alemã considera insuficientes os esforços de governo de Merkel na área climática O tribunal constitucional alemão considerou insuficientes nesta quinta-feira os objetivos do governo de Angela Merkel de redução das emissões poluentes até 2030, incluídos na lei sobre o clima de 2019. A lei sobre o clima prevê uma redução de 55% das emissões que provocam o efeito estufa até 2030, na comparação com o nível de 1990. Também estabelece por setores os volumes de emissões anuais permitidas. Quatro denúncias foram apresentadas contra o plano por associações de defesa do meio ambiente, segundo as quais os objetivos da lei não permitem combater o aquecimento do planeta de forma eficaz.

Nesse ambiente, as emissões verdes também aumentaram. "Nos meses de janeiro e fevereiro, o volume de emissões sustentáveis de dívidas foi maior do que no ano de 2020 inteiro", explica Mariana. Ela acredita que as captações sustentáveis no mercado brasileiro têm potencial para crescer de forma rápida. "A velocidade em que os mercados na Europa e nos EUA cresceram no quesito ESG não será igual no Brasil. Aqui será muito mais rápido, pois na Europa e nos EUA a expansão ocorreu devido a estímulos através de movimentos regulatórios. Aqui vamos crescer pela necessidade."

No BTG, apenas em janeiro e fevereiro as emissões sustentáveis de dívidas de empresas da América Latina feitas na instituição totalizaram US$ 2,4 bilhões, valor bem acima do US$ 1,245 bilhão atingidos em todo o ano de 2020 - em 2019 o número foi de apenas US$ 612 mil. O valor inclui empresas estrangeiras, mas a maior parte das emissões foi de companhias brasileiras.

Concreto: o que é, tipos e impactos ambientais

  Concreto: o que é, tipos e impactos ambientais Concreto é um dos principais materiais de construção e possui impactos ambientais significativos Imagem de Debby Urken no Unsplash Concreto é uma massa que pode ser moldada em diferentes formas e tamanhos. Ele é criado a partir da mistura de material de ligação (cimento ou cal) com água, aditivos e agregado, que pode ser areia, cascalho, pedra ou lascas de tijolo, entre outros materiais. O concreto é um dos principais materiais de construção, sendo utilizado em diferentes obras, como casas, edifícios, infraestrutura, colunas e lajes. Ele é bastante utilizado devido às suas características: resistência, acessibilidade, durabilidade e flexibilidade.

Em abril, mais emissões estão indo para o mercado. Como mostrou o Estadão/Broadcast, a Natura está buscando US$ 1,5 bilhão no exterior através de títulos ligados a metas de sustentabilidade. Em outro setor, a Via Varejo tenta emplacar emissão semelhante, mas com investidores domésticos.

Algumas empresas já são consolidadas como referência em ESG, mas outras têm maior dificuldade em boas práticas ambientais, pela própria natureza do negócio.  © Tiago Queiroz/Estadão Algumas empresas já são consolidadas como referência em ESG, mas outras têm maior dificuldade em boas práticas ambientais, pela própria natureza do negócio.

O sócio do BTG e responsável pela área de renda variável, Will Landers, comenta que a emissão de dívida atrelada a metas de sustentabilidade mostra o comprometimento da empresa com a causa. "Se elas não cumprem as metas, pagam taxas de juros mais caras", pontua. O setor de varejo é o mais recente segmento a aderir a essas emissões, "o que é muito construtivo, pois é uma tendência que dói no bolso", acrescenta.

Os verdes mais perto do poder

  Os verdes mais perto do poder Nova estrela na política alemã, a candidata Annalena Baerbock reforça a onda ambientalista no continente e pode ganhar a cadeira de Angela Merkel em setembroA ascensão da deputada ambientalista, indicada por seu partido no dia 19, reforça um movimento que já estava em curso nos últimos anos. Uma “onda verde” varreu o continente nas eleições europeias de 2019. Os verdes abandonaram a imagem de legenda de protesto e conquistaram mais de 10% dos acentos do Parlamento Europeu, um crescimento de 50% em relação ao último ciclo eleitoral. Venceram em cidades como Budapeste e Amsterdã.

Setor a setor

Algumas empresas já são consolidadas como referência em ESG aos olhos do mercado, como a Natura, que aborda as questões ambientais através de programas de reflorestamento, por exemplo, e demonstra um lado social forte e uma governança apurada. Porém, nem todas as empresas são tão bem vistas especialmente pela própria natureza do negócio, que dificulta boas práticas ambientais. Frigoríficos e mineradoras são exemplos frequentes.

No entanto, o analista de ações/ESG na JGP Asset, Marcos di Tullio, aponta que o Brasil é um País que tem privilégios do ponto de vista ESG, como uma matriz energética mais limpa do que a de muitos países ricos, e que tende a se beneficiar com isso. "Temos um setor de renováveis forte e temos bons ventos. Entre as empresas que ganham destaque estão Weg, Omega Energia, Aeris. Outro setor positivo é de educação, com a Arco Educação despontando na parte social", ressalta.

Do lado negativo, além de frigoríficos e mineradoras, os setores de óleo e gás e de siderurgia podem encontrar mais dificuldade para mostrar compromissos. Ainda assim, di Tullio destaca que eles sempre tendem a ter resiliência no mercado financeiro, na renda fixa ou na variável, por produzirem matérias-primas amplamente consumidas pelo setor de infraestrutura e pela população em geral. "Então, mesmo que a ação sofra devido à empresa não ser tão completa na questão ESG, ela ainda valerá a pena por ser de empresas grandes e essenciais."

Empresas veem apoio a causas sociais e diversidade como caminho sem retorno

  Empresas veem apoio a causas sociais e diversidade como caminho sem retorno Após movimentos relacionados à vacinação, ao meio ambiente e à questão racial, oposição a projeto de lei que previa a proibição de representação LGBTQIA+ na propaganda reuniu 800 empresas e deixou clara a tendência de tomada de posição do setor corporativoMas por que tantas empresas, que antes se mantinham silenciosas, de repente decidiram se posicionar? O executivo Walter Schalka, presidente da gigante de papel e celulose Suzano e com quatro décadas de experiência no mundo corporativo, acredita que o setor produtivo se deu conta que não existe de forma apartada ao que ocorre fora de suas salas de reunião.

Ainda assim, ele lembra que essas empresas podem sempre melhorar suas práticas. "Hoje fala-se bastante do uso do hidrogênio verde como substituto do combustível fóssil em uma siderúrgica. O valor ainda é alto, mas com o aprimoramento da tecnologia, vai barateando e tornando a empresa mais competitiva. O mesmo vale para os frigoríficos, que têm partido cada vez mais para a carne vegetal, com aprimoramento dos sabores", exemplifica.

No setor de óleo e gás, Landers, do BTG, enfatiza que, embora haja dificuldades para adequar a atividade a objetivos sustentáveis, metas de médio e longo prazo para minimizar o impacto ambiental são de extrema importância para o investidor. "Mais do que a atividade da empresa, é importante o que ela tem feito para reduzir os impactos."

Segundo o executivo, a comunicação das companhias é um dos pilares para disseminar as ideias, junto com a imagem que do País nessa área. "Claro que a questão do desmatamento na Amazônia, assim como o tratamento do País em relação à pandemia, são fatores que pesam na percepção do investidor."

Ainda assim, as perspectivas são positivas. "Muitas empresas já possuem um perfil ESG, mas falta uma comunicação mais efetiva. Devemos ver uma evolução a cada ano. Isso, daqui uns anos, deverá ser o normal e deveremos colher bons frutos, já que para o investidor estrangeiro, olhar empresas ESG é algo natural", pontua di Tullio, da JGP Asset.

PMEs chegam ao mercado de capitais .
Operações de emissão de dívida, antes restritas a grandes negócios, agora são viabilizadas em valores menores, abaixo de R$ 10 milhõesLevantamento feito pelo Estadão/Broadcast, com base em dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) do primeiro trimestre de 2021, mostra ofertas de volumes cada vez menores. No segmento de títulos de dívida, a entidade registrou dez operações de menos de R$ 100 milhões até 31 de março: sete ofertas de debêntures (títulos da dívida) e três de notas promissórias.

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