Brasil Mandetta diz que Bolsonaro tinha aconselhamento paralelo e que o alertou sobre pandemia

22:00  04 maio  2021
22:00  04 maio  2021 Fonte:   reuters.com

Mandetta abre CPI da Covid-19 nesta terça expondo negacionismo de Bolsonaro e obsessão pela reeleição

  Mandetta abre CPI da Covid-19 nesta terça expondo negacionismo de Bolsonaro e obsessão pela reeleição Ex-ministro da Saúde e presidenciável, demitido pelo Planalto, diz que ultradireitista estava convencido de que governadores queriam minar sua candidatura em 2022 com medidas contra a pandemia. Alinhados ao Planalto devem explorar telhado de vidro do político do DEMO depoimento do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta estreará nesta terça-feira, 4 de maio, uma das maiores provas de fogo que o presidente Jair Bolsonaro enfrentará na CPI da Covid-19 no Senado. Político experiente, Mandetta tenta se cacifar para concorrer às próximas eleições presidenciais e espera-se dele um dos tons mais críticos com potencial de gerar constrangimento ao presidente.

Por Eduardo Simões e Maria Carolina Marcello

Ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta durante entrevista coletiva em Brasília © Reuters Ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta durante entrevista coletiva em Brasília

SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) - O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse em depoimento à CPI da Covid nesta terça-feira que o presidente Jair Bolsonaro tinha um grupo paralelo que o aconselhava e que o alertou "sistematicamente" sobre a gravidade da pandemia de Covid-19 e sobre as consequências de se ignorar recomendações da ciência.

"Alertei sistematicamente, inclusive fazendo as projeções", garantiu o ex-ministro durante depoimento à comissão.

Entenda os principais pontos do depoimento de Mandetta na CPI

  Entenda os principais pontos do depoimento de Mandetta na CPI Ex-ministro descreveu um cenário em que o Bolsonaro contrariou recomendações científicas e tentou mudar a prescrição da cloroquina para tratar covid-19Aos senadores, o ex-ministro descreveu um cenário em que o presidente contrariou recomendações científicas, tentou mudar a prescrição da cloroquina para incluir covid-19 mesmo sem estudos que comprovem sua eficácia e ignorou alertas sobre a gravidade da doença que já matou mais de 400 mil pessoas no País.

Primeiro a depor à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, Mandetta afirmou que o vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, filho do presidente, esteve presente em reuniões de Bolsonaro com ministros. Também relatou que em uma delas viu esboço de decreto para incluir na bula da cloroquina, medicamento para malária e doenças autoimunes, a indicação para tratamento contra Covid-19.

"Eu estive dentro do Palácio do Planalto quando fui informado, após uma reunião, que era para eu subir para o terceiro andar porque tinha lá uma reunião de vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina, que nunca eu havia conhecido", contou Mandetta à CPI.

"Quer dizer, ele tinha um assessoramento paralelo. Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido, daquela reunião, que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação de cloroquina para coronavírus."

'410 mil vidas me separam do presidente': as críticas de Mandetta a Bolsonaro na CPI da Covid

  '410 mil vidas me separam do presidente': as críticas de Mandetta a Bolsonaro na CPI da Covid Ex-ministro da Saúde disse que governo foi alertado sobre gravidade da pandemia, mas ignorou ciência. 'Nunca fomos iludidos de achar que isso aqui seria uma solução igual da Nova Zelândia. Mas posso lhe dizer: o Brasil podia ter feito muito melhor', respondeu Mandetta a um dos senadores.Segundo Mandetta, Bolsonaro ignorou a ciência e as informações de sua pasta sobre a gravidade da crise sanitária. Mesmo alertado, diz o ex-ministro, o presidente optou por não fazer uma campanha de conscientização da população, preferindo estimular o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença.

De acordo com Mandetta, o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, também estava presente na reunião e disse que a mudança não poderia ser feita. Diante disso, de acordo com o relato do ex-ministro da Saúde, auxiliares de Bolsonaro afirmaram que se tratava apenas de uma "sugestão".

No depoimento, Mandetta disse ainda que explicava a situação da pandemia a Bolsonaro e apresentava projeções para o futuro. Uma delas estimava que a pandemia poderia resultar em 180 mil mortes ao final de 2020.

"O presidente, no mais das vezes, ele compreendia, ele falava: 'Então, vamos, vamos... Dê seguimento!'" disse.

"Mas passavam-se dois, três dias, e ele voltava para aquela situação de quem não havia, talvez, compreendido, acreditado, apostado naquela via."

PODIA MAIS

Exonerado do cargo por Bolsonaro em abril do ano passado, Mandetta disse ainda que sentia que o fato de levar informações negativas ao presidente fazia com que ele fosse visto como um mensageiro de notícias ruins, e creditou a esse fato parte do distanciamento entre os dois.

O ex-ministro também afirmou que jamais pediria demissão do cargo, por entender que médico não abandona um paciente doente. Disse, no entanto, que não negociaria seus valores para permanecer à frente da pasta.

Questionado se a situação da pandemia no Brasil, com mais de 408 mil mortes, poderia ter sido evitada, Mandetta disse que o Brasil poderia ter feito mais por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) e poderia ter começado a vacinar contra a doença em novembro do ano passado, embora tenha lembrado que ainda não havia imunizantes no momento em que chefiava a pasta.

"Sim, o Brasil podia mais, o SUS podia mais, a gente poderia mais. Poderíamos estar vacinando já desde novembro do ano passado", afirmou ele em resposta a um dos questionamentos dos senadores.

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