Brasil Desmatamento da Amazônia cria nova ameaça ao Brasil

10:38  05 janeiro  2022
10:38  05 janeiro  2022 Fonte:   estadao.com.br

Perereca ameaçada sobrevive bem na Fazenda Água Limpa

  Perereca ameaçada sobrevive bem na Fazenda Água Limpa SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A chuva tinha parado quando Reuber Albuquerque Brandão, 49, chega às 18h45, acompanhando a reportagem, à Fazenda Água Limpa. Um lobo-guará cruza na frente da Kombi dirigida pelo herpetologista, mas o vertebrado que buscamos é bem menor. Os 4.500 hectares (4,5 km2) da área experimental da Universidade de Brasília (UnB), a poucos quilômetros do Plano Piloto, fervilham de vida silvestre. Na parte mais alta, a água escorre por gretas no terreno formando pequenos córregos; basta um passo para atravessá-los.

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O desmatamento em 2021 na Amazônia, recorde dos últimos dez anos, e o enfraquecimento de agências como o ICMBio e o Ibama no governo de Jair Bolsonaro submetem o Brasil a um novo risco de ser alvo de medidas que afetem seu comércio exterior. Isso por causa da construção em fóruns internacionais da ideia de que o País falha em sua responsabilidade de proteger o meio ambiente.

Analistas civis e militares ouvidos pelo Estadão reconhecem a tendência que pode atingir em cheio o Brasil: a chamada securitização das mudanças climáticas quer o deslocamento do tema dos fóruns ambientais e econômicos para aqueles que tratam da segurança e defesa das populações e da manutenção da paz entre as nações.

O Brasil perde seu maior aliado e amigo nos EUA

  O Brasil perde seu maior aliado e amigo nos EUA O biólogo Thomas E. Lovejoy, que faleceu em 25 de dezembro, colocou a Amazônia no mapa da conservação.A morte do biólogo americano Thomas E. Lovejoy, no dia de Natal, aos 80 anos, privou o Brasil do seu mais consistente e persistente aliado nos Estados Unidos e nos foros internacionais voltados para as discussões sobre as mudanças climáticas e a sustentabilidade ambiental do planeta.

A retórica, que no passado consolidou a guerra ao terror, pode levar à criação de um eixo do mal ambiental. Em breve, ela poderia ser usada contra grupos ou países apontados como responsáveis pelos danos causados por eventos extremos, como secas, inundações e ciclones, que afetem as grandes potências. As mudanças climáticas vão ocupar na primeira metade do século um papel central na diplomacia mundial. E o Brasil, com a Amazônia e o pré-sal, está no olho do furacão.

Exemplo de como a securitização do meio ambiente aumenta ano a ano é o documento Nato 2030 – United for a New Era, publicado pela Otan em 2020. O coronel do Exército e especialista em geopolítica Paulo Roberto da Silva Gomes Filho contou nele 19 vezes a expressão "mudança climática". "Ela é apresentada como um dos 'desafios definidores' dos tempos atuais, representando sérias implicações à segurança e aos interesses econômicos dos 30 países que integram a aliança."

Ser vegetariano é uma prática individual que ajuda a reduzir as mudanças climáticas, afirma estudo

  Ser vegetariano é uma prática individual que ajuda a reduzir as mudanças climáticas, afirma estudo A maioria da emissão de gases do efeito estufa é resultado da produção de energia e uso industrial de combustíveis fósseis, porém ainda existem pequenos passos individuais que podem ajudar o meio ambiente. Cerca de 40% dessas emissões são causadas pelo impacto da agricultura e agropecuária. Portanto, a redução do consumo de carne vermelha pode ajudar a amenizar esses números. Enquanto parte da população acredita que o tópico de ações individuais tira a responsabilidade de grandes indústrias poluentes, ainda é possível caminhar para uma pegada mais sustentável.

Gestão Biden

Nos Estados Unidos, a gestão Joe Biden classificou as mudanças climáticas como questão de segurança nacional, levando o país a apoiar a sua securitização no Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). A proposta de que o clima passasse a ser tratado no órgão contou com o apoio do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Um projeto de resolução apresentado pela Irlanda e pelo Níger foi debatido. Ele previa a designação de um relator especial sobre o tema e a produção de relatórios.

A resolução abriria espaço para que, no futuro, o combate às mudanças climáticas pudesse servir de base a sanções e até para ações militares baseadas no princípio de responsabilidade de proteger, o chamado R2P, que fundamentou a intervenção na Líbia, em 2011. Mas, em 13 de dezembro, a resolução foi rejeitada em razão do veto da Rússia – houve ainda o voto contrário da Índia e a abstenção da China e 12 manifestações favoráveis, entre as quais a dos EUA, Reino Unido e França.

Polícia alemã prende soldado por ameaças a regras anticovid

  Polícia alemã prende soldado por ameaças a regras anticovid Homem contrário à vacinação obrigatória de militares publicou vídeo afirmando que "ordem constitucional" precisa ser restaurada. Ele é investigado por convocar publicamente a prática de atos criminosos. © Marius Bulling/Ostalb Network/picture-alliance Provided by Deutsche Welle A polícia alemã prendeu na noite desta quinta-feira (30/12) em Munique um soldado do Bundeswehr, as Forças Armadas Alemãs, que havia feito ameaças massivas em um vídeo, por discordar de políticas anticovid. Ele é suspeito de "convocar publicamente a prática de atos criminosos", disse um porta-voz da polícia.

Nos debates, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, enfatizou que o apoio à resolução não significava abandono da cooperação internacional. "Devemos parar de debater se o caso das mudanças climáticas é ou não um tema para o Conselho de Segurança. Em vez disso, devemos perguntar como o conselho pode usar seu poderes exclusivos para enfrentar os impactos negativos do clima sobre a paz e a segurança."

A securitização está de acordo com o conceito de dissuasão integrada, defendido pelo secretário de Defesa, Lloyd Austin. Além de integração multidomínio nos campos de batalha – terra, mar, ar, espacial e cibernético –, ele quer o mesmo nas alianças e parcerias com países. "É lógico que o Brasil, o maior país da América do Sul, seja cortejado pelos EUA, pois eles estão em disputa hegemônica com a China", disse o coronel.

Mas essa situação pode mudar, caso o Brasil seja percebido como uma ameaça. No conselho, os EUA enfrentaram a oposição da China. O embaixador Zhang Jun afirmou: "Os princípios da responsabilidade comum, mas diferenciada, respectiva capacidade e equidade são os pilares da governança climática global. Não seria apropriado o Conselho de Segurança como fórum para substituir a tomada de decisão coletiva pela comunidade internacional."

Maioria dos americanos teme o 'colapso' da democracia, indica pesquisa

  Maioria dos americanos teme o 'colapso' da democracia, indica pesquisa A maioria dos americanos considera que a instabilidade política é a maior ameaça aos Estados Unidos, onde a democracia poderia entrar em "colapso", de acordo com uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (12) que confirma a divisão do país um ano após o ataque ao Capitólio. Segundo uma pesquisa da Universidade de Quinnipiac, 76% dos entrevistados acreditam que a instabilidade política é a ameaça mais grave ao país, em comparação com 19% que citam países estrangeiros hostis aos EUA.Os mais preocupados são ativistas e simpatizantes democratas (83%, contra 66% dos republicanos) e indivíduos entre 18 e 34 anos (80%).

Para o coronel Paulo Filho, em um mundo em que a hegemonia é disputada, ações da ONU serão cada vez mais difíceis. Ele contou que o texto da Estratégia Nacional de Segurança russa já anunciava o veto ao dizer: "A crescente atenção da comunidade internacional às mudanças climáticas e à manutenção do meio ambiente é usada como pretexto para limitar o acesso de empresas russas ao mercado exportador, restringir o desenvolvimento da indústria russa, estabelecer o controle sobre rotas de transporte e impedir o desenvolvimento da Rússia no Ártico".

Cenário

A discussão na ONU pode afetar o Brasil. Já em 2019, o blog do Exército publicou artigo do coronel Raul Kleber de Souza Boeno no qual alertava que "uma eventual securitização da questão climática teria implicações para a soberania brasileira, com significativas consequências para suas Forças Armadas". Foi atrás de como isso pode acontecer que o pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP Gustavo Macedo produziu cenários em que o conceito de responsabilidade de proteger seria usado contra o Brasil. Dentre eles, estão os crimes contra povos indígenas e o meio ambiente.

Em 2018, Macedo foi o redator do documento Making Atrocity Prevention Effective (Tornar Eficaz a Prevenção de Atrocidades), quando trabalhava como assistente de Ivan Simonovic, o diretor do Departamento de Prevenção a Genocídio e Responsabilidade de Proteger, da ONU. Ele acredita que a ação de Bolsonaro diante de crimes ambientais e humanitários "tornou urgente falar sobre o tema no Brasil". "Pessoas de fora, como o Stephen Walt, (professor) de Harvard, já trataram da possibilidade de se aplicar ao Brasil o R2P, por causa da Amazônia."

Revista Inglesa coloca Yuri Alberto na lista de jogadores que devem se destacar nesta temporada; “Predador da grande área”

  Revista Inglesa coloca Yuri Alberto na lista de jogadores que devem se destacar nesta temporada; “Predador da grande área” O atacante Yuri Alberto do Internacional está entre as maiores promessas de futebol nesta temporada, conforme noticiado pela revista inglesa ‘FourFourTwo’. Na publicação existe uma lista com 22 nomes de jogadores até 22 anos, que devem se destacar nos próximos meses. O jogador da equipe Colorada é o único atleta do futebol nacional na listagem. Mas existe o nome de mais um jogador brasileiro, Vinicius Jr., Que joga pelo Real Madrid. Erling Haaland é o primeiro nome na lista de 22 jovens, jogando pelo Borussia Dortmund, é o nome apontado para ser o mais badalado nos próximos meses, diante da incrível média de gols marcados na Alemanha.

Walt publicou em 2019 um artigo na revista Foreign Policy no qual perguntava se os países têm o direito ou a obrigação de intervir em outro país para impedi-lo de causar dano irreversível e catastrófico ao meio ambiente. Depois, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a ideia de um “status internacional à Amazônia”.

"É preciso alertar o público brasileiro", disse Macedo. Para ele, essa linguagem diplomática pode ser mobilizada contra o Brasil. "A intervenção não necessariamente é militar; ela pode ser política e econômica. Na história da aplicação do conceito de responsabilidade de proteger, na imensa maioria das vezes, ele foi usado para ação política e econômica, não militar."

Vulnerabilidade

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Juliano Cortinhas, o governo brasileiro pode reduzir a vulnerabilidade do País se voltar a fazer o dever de casa, fortalecendo as agências ambientais e a matriz energética limpa para ter dados positivos na proteção do meio ambiente.

"Associar segurança e meio ambiente em relações internacionais é inevitável. Com as mudanças climáticas, a segurança de todos será afetada. E quem define os temas a serem securitizados são as grandes potências." Para ele, nossas Forças Armadas não têm como impedir a ação de grandes potências. E a solução não é aumentar o orçamento da Defesa, mas reequilibrá-lo, crescendo a conta de investimento e diminuindo a de pessoal. "A Marinha britânica tem 35 mil militares e a nossa tem 80 mil com menos da metade de navios e submarinos."

Filmes premiados e blockbusters chegam ao streaming

  Filmes premiados e blockbusters chegam ao streaming A programação de streaming da semana está bastante variada, com lançamentos premiados nas plataformas de assinatura e blockbusters nas locadoras digitais. Além disso, é possível acompanhar de graça o My French Film Festival, com nove longas inéditos do cinema francês atual, na Filmicca. Confira abaixo 10 sugestões, entre as muitas opções disponibilizadas nesta semana, para […] A TRAGÉDIA DE MACBETH | APPLE TV+

Cortinhas sublinha o efeito da adoção de padrões internacionais de proteção do meio ambiente. "Quem vai pressionar um país que tem resultados a mostrar?" Segundo ele, com Bolsonaro a vulnerabilidade do País cresceu. "Quando se começa a esconder dados, mascarar a realidade e dizer que a responsabilidade é de países que mais poluem, fica-se mais vulnerável às pressões internacionais."

Para o coronel Paulo Filho, o Brasil será pressionado se não mostrar que fez sua parte à comunidade internacional. "Precisamos ter posição madura. Não podemos negar as mudanças climáticas. Elas podem ser instrumentalizadas contra nossos interesses e servir ao protecionismo agrícola? Podem. É uma realidade. Mas elas também têm efeitos que devem ser combatidos."

Governo trata com desconfiança interesse de potências

O governo brasileiro trata com desconfiança o interesse de potências estrangeiras na preservação da Amazônia. Para o especialista em geopolítica, coronel Paulo Filho, isso acontece em razão do protecionismo. Ou seja, a defesa do ambiente seria instrumentalizada para atacar as exportações do agronegócio do País.

"O Exército vê com desconfiança o interesse em relação à Amazônia, região com a qual tem uma relação afetiva e uma longa tradição de defesa." Na última década, a questão ambiental entrou na formação dos comandantes. "Quando fui comandar, em 2014 – a gente faz um curso –, não me falaram sobre meio ambiente. Agora, os comandantes recebem uma carga horária de 60 horas sobre meio ambiente."

No Reino Unido, o Ministério da Defesa criou um cargo, ocupado pelo general Richard Nugee, para lidar com mudanças climáticas. Após a COP-26, ele escreveu: "Devemos ser claros, nossa liberdade de manobra, da estratégia à tática, será constantemente erodida e diminuída. Portanto, para permanecer na vanguarda da capacidade operacional, é imperativo que entendamos o futuro e nos adaptemos a ele, da melhor maneira possível".

Sahel

Os exércitos estudam como as mudanças afetarão seu trabalho. Nos debates no Conselho de Segurança sobre a securitização do clima foram citados países que estão sofrendo ameaças à segurança em razão das mudanças climáticas, como os do Sahel, na África. Com a desertificação da área, populações inteiras seriam forçadas a migrar para o sul ou para o norte e para Europa.

Para Paulo Filho, o clima já é entendido como ameaça à segurança humana. "Faz parte das atribuições das Forças Armadas de todo o mundo a defesa dos seus cidadãos. Se vou ter catástrofe climática, subir o nível dos mares e provocar migrações em massa, isso se torna problema de segurança." A securitização do clima, disse ele, está ligada ainda ao fato de o Ocidente, após a Guerra Fria, ter dado mais ênfase a temas ligados à segurança humana.

Desmatamento no Cerrado traz alerta para segurança hídrica .
Por IPAM - O desmatamento no Cerrado em 2021 se concentrou em duas das principais regiões hidrográficas do país, a do Tocantins-Araguaia e a do São Francisco. Juntas, perderam 56,8%, ou 4.840,86 km², do total de 8.523,44 km² derrubados no bioma entre agosto de 2020 e julho no ano passado. A bacia do Rio Tocantins foi a mais afetada: concentrou 23% do total desmatado, ou 1.961,13 km², uma área maior que a capital do Maranhão, São Luís. É seguida pelas bacias do Médio São Francisco, que responde por 15,9%, ou 1.356,65 km² do total suprimido, e a do Araguaia, com 15,7% (1.336,5 km²).

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