Esportes Para entender a ascensão meteórica da FURIA, basta olhar para guerri

21:11  14 outubro  2020
21:11  14 outubro  2020 Fonte:   espn.com.br

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Em 2020, o cenário brasileiro de Counter-Strike: Global Offensive presenciou a troca definitiva de bastão do melhor time que representa o país no cenário internacional. Status até então ocupado pela MIBR de FalleN, agora o sonho tupiniquim está nas mãos da FURIA de KSCERATO. Os acontecimentos neste ano, dentro e fora dos servidores, são incontestáveis para essa mudança tão importante pro nosso CSGO.

Entre certezas e acasos, guerri sempre foi um iluminado durante trajetória pelo Counter-Strike © Divulgação/HLTV Entre certezas e acasos, guerri sempre foi um iluminado durante trajetória pelo Counter-Strike

Os resultados são prova. Com três títulos até o momento na temporada, a FURIA renova as esperanças do Brasileirinho tendo em vista um prestígio o qual há muito tempo não sentimos o gosto: Brasil campeão mundial com uma conquista de Major - algo que se perdeu no passado até que recente, mas que parece uma eternidade quando olhamos para 2016 e 2017.

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No segundo semestre deste ano, os Panteras foram campeões por DreamHack Masters Spring, DreamHack Open Summer e, mais recentemente, ESL Pro League. A equipe já alcançou o Top-4 do ranking mundial promovido pela HLTV, além de sempre brigar com o pelotão de cima. Por fim, a vaga para o próximo Major está praticamente encaminhada. Ainda assim, é pouco para a FURIA, como garantiu o técnico Nicholas “guerri” Nogueira.

“Está muito longe do que eu quero que a gente esteja. Muito longe”, disse o treinador em entrevista exclusiva para o ESPN Esports Brasil com um tom sério na voz.

Aliás, basta olhar para guerri pra se entender o sucesso da FURIA em 2020. Não é exagero afirmar que as duas histórias se confundem e se entrelaçam praticamente se tornando uma só. “Esse processo de construção da FURIA como organização é parte do meu processo. Do meu processo como pessoa também”, comentou.

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Estudioso e viciado em poker, guerri faz questão de mostrar para o mundo que ele não joga nada “brincando”. A vida meio que o levou para esse caminho. Não à toa, ele se encontra no CSGO, um game de alto desempenho constante. “Jogo pra ganhar tudo, tudo, tudo. Sou chato. Sou muito competitivo.”

E a sua ambição pessoal é projetada, claro, na vida profissional - principalmente na figura da FURIA, organização a qual ele foi muito importante para o surgimento. Em uma apresentação de PowerPoint para os bambambãs que estavam cogitando entrar com investimentos no cenário de CSGO, guerri já havia planejado tudo - ou quase tudo, vai. A visão era uma só: “A FURIA nasceu com a pretensão de ser a maior organização do mundo”, falou para a reportagem sem titubear.

UM PAULISTANO NO GRANDE ABC

As histórias de guerri e FURIA se confundem como uma só © Reprodução/Instagram As histórias de guerri e FURIA se confundem como uma só

Antes de falar sobre guerri e FURIA, porém, é necessário se atentar para a história de Nicholas Nogueira, um paulistano mais com cara de paulista. Mesmo nascendo na região da Paulista, na capital de São Paulo, ele se considera bem mais cria do Grande ABC - mais necessariamente de São Bernardo do Campo.

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“Comecei morando em São Paulo, bem criança, e lá com sete anos fui morar perto da minha família em São Bernardo. A minha vida toda foi ali: escola, amigos, tudo”, explicou.

Até mesmo por ser nascido em 1990, Nicholas foi daquela geração que viveu a febre das lan houses. Até que com seus 12 anos de idade, uma turma da escola chegou animada na sala e comentou de “um jogo diferente”. Geral se animou de colar por lá depois da aula. A essa altura, ele já estava em um colégio particular - até então, estava no ensino público.

E o menino que um dia viria a se tornar guerri se sentiu “dentro do jogo” quando entrou nos servidores do Counter-Strike 1.6. “Naquela época não tinha nada, então eu viciei”, relembrou pilhado. “A lan house era muito perto da minha escolha. Eu ia direto. Foi ali que comecei a jogar CS. Fui brincando até que acabei entrando no time da lan e aí fui para um time melhor. Depois, treinar com times profissionais.”

Mas filho de Maria Aparecida não podia ficar só jogando não. Para sua mãe, a regra era clara: estudos primeiro, jogatina depois. A situação financeira não era das melhores, por mais que nunca faltou nada na mesa. “Cartão de crédito lá no vermelho e matando um leão por dia pra poder viver. Era essa a condição”, pontuou. “E sempre foi assim até eu conseguir estar do jeito que estou hoje na FURIA.”

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Maria Aparecida tem desde sempre um acordo com guerri: ‘Se você tá feliz, eu tô feliz’ © Reprodução/Instagram Maria Aparecida tem desde sempre um acordo com guerri: ‘Se você tá feliz, eu tô feliz’

“Mas ela sempre foi uma mãe muito tranquila, sabe... 'Quer ir pra lan? Tá bom, mas vou te pegar tal hora.’ 'Quer fazer Corujão?' Aí ela queria saber quem estava lá pra conhecer e tal, mas ela sempre me deixou viver assim. Ela não me fechou em uma bolha. Ela me dava muita liberdade porque a gente sempre teve muita confiança.”

Até mesmo para garantir a diversão no CS 1.6, Nicholas não dava problema na escola. Pelo menos em termos de nota. Ele ia bem nas provas. “Sempre fui bom aluno, nunca fiquei de recuperação. Eu conseguia focar.”

E, enquanto isso, os primeiros passos como jogador profissional de Counter-Strike eram dados naturalmente e já com um caminho promissor. “Quando eu estava no terceiro ano, já estava indo jogar a ESWC com a vsONE, que era um time da época que a gente estava ali entre terceiro e segundo do Brasil. O primeiro era a MIBR.”

Desde pequeno, guerri sempre foi muito conectado com computadores; na foto, ele está ao lado de Spacca, velho amigo de infância © Acervo pessoal Desde pequeno, guerri sempre foi muito conectado com computadores; na foto, ele está ao lado de Spacca, velho amigo de infância

“No final do meu colégio, eu já estava tendo que ir disputar um campeonato. E foi uma coisa fora de série... Né? Você tá acabando o Terceiro Ano do Ensino Médio e vai pra França jogar um Mundial é meio surreal. Hoje em dia já é mais comum, mas naquela época não era”, contextualizou de forma descontraída.

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Foi quando o já adolescente do nickname guerri precisou parar e respirar um pouco. Ele sentia que estava dando passos maiores do que a própria perna. “Terminei o colegial, passei na FEI, na Faculdade de Engenharia, já tinha feito a inscrição, só que aí eu comecei a ficar meio... 'Poxa, eu tenho 17 anos. Decidir o que eu quero fazer para o resto da minha vida com 17 anos é muita responsabilidade'”, relembrou.

“Fiquei com isso na cabeça e falei: 'Mãe, passei, mas não sei se quero passar'. Passei em Ciências da Computação. Era uma área que eu já sabia mexer até por causa do CS. Mas aí falei: 'Olha, mãe, não quero. Vamos cancelar a matrícula e eu vou passar esse ano de 2008 só pesquisando se é isso mesmo que eu quero, buscando cursos da área de tecnologia'. E foi isso que eu fiz. Meio que um ano sabático, mas de curso. E aproveitei que eu tinha um tempo maior disponível e continuei jogando.”

APÊ NA MOOCA E CORUJÃO DE TRAMPOS E ESTUDOS

Um dos escritórios pelos quais guerri passou: ele sempre esteve na área de tecnologia © Reprodução/Instagram Um dos escritórios pelos quais guerri passou: ele sempre esteve na área de tecnologia

“Minha mãe sofreu nessa época”, já se antecipou guerri na conversa com algumas risadas nervosas. Ali pra segunda metade de 2008, ele estava conciliando de forma mais ávida a vida de jogador profissional com cursos de especialização em tecnologia.

Residente no apartamento 83 de um prédio na Mooca, guerri dividia seu dia a dia com a galera da equipe que teve o nome batizado por conta do número do apê. “O time era eu, prd, Leon, Spacca e rikz. A gente passou ali alguns meses, como WGC aqui no Brasil.”

Era uma rotina de acordar cedo por causa do curso e depois treinar até tarde. Como ele estava cada vez mais gostando da área de servidores, levar o curso até que não foi problema em meio aos treinos e às competições, mas… “Chegou em um ponto que, no fim de 2008, eu não estava mais conseguindo desempenhar como os outros meninos talvez por dom ou foco… Tava batendo na minha bunda... Eu não tinha mais 16 anos, tava com 18.”

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Era a vida cobrando. “Você não tinha um salário fixo nem premiações grandes. Era amor pelo jogo. Amor pela competição, pela adrenalina, pelo desafio. Era realmente isso. Não tinha mais nada. Era só. O que já era muito.”

O desempenho de guerri foi caindo até que ele foi sacado do time para a entrada de bit, que estava livre no mercado. Decisão até que tranquila para ele já que quem deu a notícia foi Spacca, seu amigo de infância e com quem sempre teve bom relacionamento. “A gente chegou a ganhar da MIBR em um campeonato que tinha vaga pra fora. A gente estava bem, mas eu não conseguia ter o mesmo foco que os meninos porque eu estava estudando, fazendo curso.”

Motos são uma da paixão de guerri há muito tempo © Reprodução/Instagram Motos são uma da paixão de guerri há muito tempo

Até mesmo por conta da paixão pelo jogo, guerri ainda rodou por algumas equipes. Chegou a fazer dupla com pava, por exemplo. Como o CS 1.6 tinha ainda um caráter muito regional, ele chegou a fazer amizades dos mais variados lugares do Brasil, como Brasília, Minas, Bahia, Espírito Santo, Rio e São Paulo. Mas a rotina não dava mais para seguir a mesma. Ele havia entrado na faculdade. Isso tudo já em 2009.

Bem de vida, guerri trabalhava muito e estava mais próximo do que nunca dos computadores do que de sua moto © Reprodução/Instagram Bem de vida, guerri trabalhava muito e estava mais próximo do que nunca dos computadores do que de sua moto

Nicholas fez uma graduação de tecnólogo, em rede de computadores, se formando em 2011. Ele focou em certificações porque sabia que, na área dele, era o que se destacava para conseguir um emprego. O primeiro trabalho que ele teve no currículo pra valer foi um estágio em uma multinacional chamada T-Systems, onde trabalhava com datacenter e sistemas internos. Basicamente, era “arrumar a casa” dos funcionários quando pintavam problemas de redes e servidores. Foram oito meses de casa até ser efetivado.

Consagrado no Counter-Strike, pava foi um dos responsáveis pela volta de guerri ao competitivo - agora pelo CSGO © Reprodução/Facebook Consagrado no Counter-Strike, pava foi um dos responsáveis pela volta de guerri ao competitivo - agora pelo CSGO

Só que assim… Era um trabalho focado em banco de dados, o que significava uma rotina de 24/7, “das dez da noite às seis da manhã. O que é um inferno”, relembrou. “Trabalhei durante oito meses nessa escala. E era escala ainda. Eu trabalhava de sábado, domingo, e aí no outro final de semana eu folgava.”

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Insatisfeito com a rotina e, pior, se sentindo cada vez mais atrás da turma de faculdade, guerri otimizou o seu dia a dia e aproveitou o tempo ocioso pra estudar. “Foi aí que comecei a fazer um curso de uma certificação que era muito difícil lá, que se chamava CCNA, que é voltado pra CISCO, que é um fabricante de equipamentos de rede de computador. O maior do mundo. E falei: vou ficar bom nessa p*rra.”

Já pelo CSGO, primeiro time de guerri foi a CNB © Reprodução/Instagram Já pelo CSGO, primeiro time de guerri foi a CNB

Ou seja, a rotina virou um inferno - e guerri passou a viver de sexta para sábado um novo tipo de Corujão, mas agora de trampo e estudos mesmo. Isso porque ele fazia faculdade à noite e depois emendava no trabalho de madrugada, mas de sábado a jornada era ainda maior. O expediente de sexta acabava às seis da manhã no sábado, e ele ia direto para o curso, que era de sábado e começava às oito - acabando só seis da tarde. “Tinha que trabalhar, né?”

Foi quando, por conta do LinkedIn, ele migrou para uma empresa bem menor. O dono queria alguém com perfil para aprender e guerri estava com “segue de evolução”. A mudança foi drástica já que ele saiu de uma multinacional para trabalhar em um lugar que tinha apenas 50 funcionários. “Era outro mundo. Só que ali eu tinha que fazer tudo sozinho. Eu tinha que me virar sozinho.”

Passagem rápida pela T Show ficou marcada de forma bem positiva para guerri © Reprodução/Instagram Passagem rápida pela T Show ficou marcada de forma bem positiva para guerri

SHIFT NA VIDA

Viciado em poker, guerri é muito fã de Akkari © Reprodução/Instagram Viciado em poker, guerri é muito fã de Akkari

“Eu lembro muito bem desse shift, dessa mudança…”, comentou guerri deixando evidente que a mente estava cavando as memórias a cada palavra.

“Acho que foi a parte mais importante da minha vida”, rompeu com o silêncio. “Eu aprendi demais ali. Evolui como ser humano, evolui em diversos aspectos que eu devo muito a essa fase. Acho que me fez estar aqui, entendeu?”

E, sem problema nenhuma, guerri não esconde que a decisão se deu mais por motivos pessoais do que algo planejado e já pensando nessa experiência que teria por ter que encarar os processos sozinhos. Ele só queria ter uma vida social, algo muito justo para um jovem de apenas 21 anos.

Novos horizontes estavam se abrindo para guerri quando ‘fundou’ a FURIA © Reprodução/Instagram Novos horizontes estavam se abrindo para guerri quando ‘fundou’ a FURIA

“Eu não queria estar mais nessa empresa porque eu não queria mais trabalhar durante aquele horário porque era difícil. Tem vários trabalhos difíceis, mas… Você tem que dormir das sete da manhã às cinco da tarde. Você perde o dia. Você praticamente só dorme e trabalha. É estranho.”

Com o salário dobrado, vida social, e atuando agora sim na sua área de especialização, foi um momento dourado na vida de quem tinha que lidar com o cartão de crédito da mãe no vermelho anos atrás. E o salário só aumentava uma vez que ele chegou a tirar 12 certificações - o que praticamente dobrou os vencimentos dele em um ano. Tudo fruto dos seus estudos. Estudos que o permitiram a comprar uma “Ninjinha”.

Como jogador, ainda faltava algo para guerri estar no mesmo nível que seus companheiros de equipe © Reprodução/Instagram Como jogador, ainda faltava algo para guerri estar no mesmo nível que seus companheiros de equipe

“Gosto de moto”, contextualizou. O problema é que a rotina era praticamente uma bola de neve entre estudos e trabalho. Então a Ninja 250 recém-comprada não rodava. “Eu olhava pra ela no domingão de Sol lá embaixo... Eu não saia com ela e ficava só estudando.”

“Mas valeu demais pra mim esse tempo”, ressaltou. “Minha namorada levava comida pra mim porque eu não saia do quarto. Foi uma época que eu batalhei muito para conseguir as coisas que eu queria. E isso se tornou realidade também, financeiramente falando, na própria empresa.”

Ao fundo, Jaime foi o responsável pela vinda de KSCERATO (destaque) para a FURIA © Divulgação/ECS Ao fundo, Jaime foi o responsável pela vinda de KSCERATO (destaque) para a FURIA

Até que o LinkedIn mais uma vez entrou em ação. “O LinkedIn foi uma ferramenta que na época eu deixava bonitinho, mas não imaginava assim, sabe…”, admitiu.

Foi necessária apenas uma conversa mais séria de guerri com KSCERATO para que ele entrasse na atmosfera da FURIA © Divulgação/HLTV Foi necessária apenas uma conversa mais séria de guerri com KSCERATO para que ele entrasse na atmosfera da FURIA

Desta vez, uma empresa concorrente estava interessado na contratação de Nicholas Nogueira. “Mas assim, não era concorrente. A empresa que eu estava jamais chegaria no nível dela porque ela era gigantesca. Ela era concorrente porque fazia as mesmas coisas, mas para clientes muito maiores.”

E lá foi guerri ouvir a proposta. Antes, porém, ele precisava ser ouvido pelos responsáveis pelo processo seletivo. “Eu tinha que ir com um PowerPoint me apresentando para dois gestores”, relembrou. “ Eu já tinha amadurecido muito na outra empresa porque fazia muita reunião, viajava o Brasil.. Como era uma empresa pequena e eu era o especialista, então eu me desenvolvi muito profissionalmente naquele dois anos, nessa empresa pequena. Então eu estava tranquilaço, eu estava no gás.”

A paixão gritou mais alto e guerri acabou fazendo sua apresentação com base naquilo que nunca deixou de estar junto dele: o amor por Counter-Strike. Sim, guerri fez uma apresentação de PowerPoint para dois gestores de uma mega empresa com base no CS 1.6.

“Falei como CS foi importante pra minha inserção e evolução na profissão porque eu tinha facilidade com algumas coisas que normalmente as pessoas demoram a ter”, refletiu. “Por exemplo, trabalhar em grupo, lidar sob pressão, escutar crítica, dar feedback. O CS me ensinou isso muito jovem porque eu sempre tive um perfil mais de líder, capitão.. Se tem uma dinâmica de grupo eu já vou puxar, sabe? Eu não sou muito só de escutar. Eu falo bastante, gosto de falar... Sou bem comunicativo. E eu sei que o CS me deu a base pra isso. Então eu fiz a apresentação, falei tudo o que eu fazia.. Porque eu era daquele jeito, e os caras ficaram apaixonados por mim.”

Atuando também como gestor, guerri sempre se preocupou em ter uma cultura bem sólida na FURIA © Divulgação/Instagram Atuando também como gestor, guerri sempre se preocupou em ter uma cultura bem sólida na FURIA

Negócio fechado, a sensação ali era de que apenas o céu era limite. “Eu devia estar ganhando uns 4 e meio naquela empresa menor, e eles me ofereceram 5 e meio. Eu pedi seis e eles me deram. Eu fui lindo, bonitão. Tava com 23 anos. ‘Agora eu estourei, estou em uma empresa grande.’ Eu tava muito feliz. Agora é só continuar fazer o que estou fazendo que acabou, eu vou ter família, vou ter filhos, vou ter casa…”

O RETORNO PARA O COUNTER-STRIKE

Papo reto: guerri está fechado com os seus garotos, mas cobra quando é necessário © Divulgação/FURIA Papo reto: guerri está fechado com os seus garotos, mas cobra quando é necessário

A bagagem adquirida na empresa menor fez com que guerri levasse o novo emprego de “braçada”. Reuniões com diretores já era algo comum para Nicholas Nogueira, que estava voando. “Eis que…”, pausa dramática em meio ao raciocínio. “A vida me fala: 'Não, não está tudo bem não. Fica tranquilo aí, não vai ser assim não'”, disse sem esconder as gargalhadas.

“Era pra ser, sabe? Não tem explicação”, divagou guerri, sem dar spoiler do que o fazia rir tanto e porque a vida teria dito aquilo para ele. “Eu estava muito bem na empresa, focado, bem pra caralh*... Trabalhava até 10 horas sem reclamar, aí…”

Nessa época, guerri cuidava de clientes hospitalares e tinha um grande cliente no Rio de Janeiro. Então ele viajava muito para lá, em viagens de dois ou três dias de duração. Em uma dessas viagens, ele chegou a fazer alguns stories no Instagram e um amigo das antigas mandou mensagem, o Rodrigo. Ele não era jogador nem nada, mas sempre estava ali nos bastidores do Counter-Strike e era muito próximo de vários jogadores.

Quando para pra revisitar a própria história, a mente de guerri vai longe © Reprodução/Instagram Quando para pra revisitar a própria história, a mente de guerri vai longe

A dupla marcou de ir num rodízio de comida japonesa. Papo vai, papo vem, Rodrigo comentou que tinha passado a tarde na casa do pava jogando CS. O choque foi de imediato. “Eu tive uma amizade muito grande com ele [pava] ali no final de 2009. Eu passei um mês no Rio na casa dele. Na casa dele mesmo. Ele, a mãe dele.. A gente jogando, saindo. Tive uma amizade muito legal com o pava nessa época. Então quando ele falou que tava com o pava, eu falei: ‘Pô, que legal! Passa o WhatsApp dele’.”

Guerri e Maria Aparecida: duo para a vida toda © Reprodução/Instagram Guerri e Maria Aparecida: duo para a vida toda

O próprio guerri interrompeu a história para recapitular o hiato em que Counter-Strike já estava na vida dele. “Isso foi em 2015. Eu parei de jogar em 2009... Já faziam quase seis anos.” Após algumas mensagens trocadas, lá estava guerri na casa de pava. “Cheguei lá, ele estava jogando CS.”

“Eu estava fora do CS faziam seis anos. Eu não relava, eu não entrava na Steam, eu não fazia nada... O máximo que eu acompanhava era o Spacca, que ele me contava alguma coisa, que é meu amigo de vida.”

E a vida estava realmente querendo mostrar algo para guerri naquele momento, afinal, mais uma coincidência se apresentou. “Quando cheguei lá, ele estava jogando CS, e contra quem? Contra o Spacca. Ele estava jogando um PUG contra o Spacca!”, se animou recontando o acontecido.

“Eu falei: C*ralho, pava, olha como está o CS... Porque eu não sabia o que era CSGO. “'Nossa, que da hora que tá o CS'. Aí ele me deixou jogar.. Sentei pra jogar e 'Nossa, que gostoso'. E o pava com PC bom, equipamento bom, tudo da hora... Naquele momento, o bichinho picou. Aquele foi o momento. 'Mano, eu vou jogar'. Não tenho pretensão nenhuma, mas eu vou jogar. Só que... Eu me conheço, né? Era óbvio que eu tinha pretensão de jogar sério, eu não jogo brincando.”

‘Paizão’ na FURIA, guerri nunca teve contato com o pai © Reprodução/Instagram ‘Paizão’ na FURIA, guerri nunca teve contato com o pai

“Era uma quinta-feira... Voltei pra São Paulo, passou sexta, aí no sábado de manhã eu fui pra 25 de Março. Montei um PC ali na hora, um PC top na época. Eu tava com grana. Sai com o PC embaixo do braço. Comprei o monitor. Aí sai. Isso de carro. Depois peguei o metrô, fui até a loja da ProGaming na época se não estou enganado e comprei mouse, teclado, fone, tudo. Isso tudo de manhã. Aí cheguei de tarde, cansado... Pesado pra c*ralho, tudo sozinho. Sozinho feito louco. Sozinho. Meti o louco. Deixei tudo pronto. PC bonito, mousepad da Fnatic, laranja.. Muito louco. Aí entrei pra jogar um PUG. O primeiro PUG que joguei foi uma Season, aquele mapa... Chegou no pistol: eu matei os cinco. Eu juro por tudo que matei os cinco bonecos no pistol!!!!!”, relembrou com muitas gargalhadas e recuperando o fôlego após descrever a Odisseia que foi aquele dia. “Aí eu falei: Acabou. Eu vou jogar essa p*rra!”

Entre certezas e acasos, guerri sempre foi um iluminado durante trajetória pelo Counter-Strike © Divulgação/HLTV Entre certezas e acasos, guerri sempre foi um iluminado durante trajetória pelo Counter-Strike

GUERRI VERSÃO CSGO

Técnico da FURIA avalia excessos que partem dos torcedores, mas vê comunidade amadurecendo © Fornecido por ESPN Técnico da FURIA avalia excessos que partem dos torcedores, mas vê comunidade amadurecendo

A volta de guerri ao competitivo de Counter-Strike, agora pelo CSGO, se deu com as cores da CNB. “A CNB estava querendo um time de CS porque ia ter um campeonato que envolvia grana, eles queriam ter time de CS, eles só estavam no LoL”, lembrou.

“E a gente teve muito contato com eles no 1.6, muito, muito. A gente sempre conheceu os caras, então, quando fomos falar com eles, foi a mesma época que o steel tinha sido tirado da Luminosity, e ele estava sem time. O chucky era um cara que jogava comigo no 1.6 e sempre trabalhou com manager na CNB, e aí juntou: eu, Spacca e Leon, os três [das antigas], com steel e chucky.”

A estreia foi em 6 de janeiro de 2016, contra a INTZ, pelo MAX5 Invitational. Ao todo, foram empates contra INTZ (de cogu), g3x, Santos.DeX (de pava) e um atropelo sofrido diante da Luminosity (de FalleN e companhia). “A gente tomou um espanco”, relembrou guerri sobre essa última partida contra o time que viria a ser bicampeão mundial.

A passagem pela CNB perdurou até o fim de 2016, quando guerri foi para a T Show. A despedida na CNB foi com o título pela XLG UOL Super Cup, quando nak já estava no elenco. Foi quando aconteceu uma debandada geral e os medalhões se separaram.

“O nak tava atrás de organização e aí uma gringa veio atrás, a Orbit, era sueca eu acho... E aí eles criaram um time e tiraram eu, spacca e prd. Foi quando o spacca fez um time com o prd e outros moleques, que era Merciless eu acho. O time deles era s1, prd, tifa, delboNi e Spacca. E aí eu entrei pra Tshow. O meu era f11, vini, knight, guerri e zam.”

“Foi uma época em que me desconectei muito do Spacca, do prd, dessa galera do 1.6. Eu meio que iniciei um time do zero, tendo eu como capitão, do jeito que eu queria”, comentou.

De acordo com o próprio guerri, foi uma “época muito legal” da vida dele. “Foi quando eu mudei. Eu mudei muito. Joguei com jogadores jovens, muito novos e desconhecidos. Não estavam entre os melhores, e foi uma época muito legal da minha vida.”

“A gente passou tempo em uma gaming house lá em Curitiba. A T Show foi uma organização legal pra gente. E aí foi quando conheci o vini. E o vini está comigo até hoje por causa dessa época. O vini era muito bom já. Ele era um profissional incrível”, destacou.

“E o karma desse negócio é que a primeira vez que eu joguei contra o Spacca e o prd, eu ganhei!”, relembrou. “A primeira md3 que jogamos contra, eu ganhei. Depois de uns cinco meses que eu já tinha saído da equipe deles, ganhei dos caras. Foi um jogo na TV eu acho. Ali na T Show eu joguei durante uns quatro meses, só que…”

INICIATIVA FURIA

A conversa precisou pausar e voltar algumas casas. E tem tudo a ver com a FURIA. “Acho que essa parte ninguém sabe”, se antecipou guerri.

“Quando deu merda na CNB porque eles não queriam mais um time de CSGO, eles estavam com outro foco etc, eu tinha conhecido o Akkari. Eu conheci o Akkari no fim de 2015 porque fui conhecer a GH da CNB já que iriamos entrar no time no começo de 2016. Dia 29 de dezembro que eu fui conhecer. Ano novo. Tava o time do LoL... YoDa, pbO... E aí o Akkari estava indo lá também. Ele foi lá pra conhecer a GH porque ele tava querendo entrar nos esports. Tanto que ele entrou como sócio da CNB durante um bom tempo.”

A admiração de guerri por Akkari se deu logo após ter largado o CS 1.6. “Senti falta da adrenalina que eu sentia competindo. E meio que precisava substituir aquilo, como se fosse um vício. Então durante esse tempo que eu estava trabalhando e estudando, também tava estudando poker. Eu gostava muito de jogar. Gosto até hoje. Jogava, tentei seguir uma linha ali pra virar profissional.”

Para guerri, Akkari “sempre foi uma referência”. “Foi embaixador [do poker brasileiro], ganhou bracelete. Então era muito fã do cara. Não sou muito de ser fã, mas dele eu era.”

Antes de ir para a T Show, guerri chegou a mandar uma mensagem para Akkari, já sócio da CNB, explicando o ocorrido e pedindo uma chance para que ele apresentasse um projeto de CSGO. O prometido almoço só aconteceu dois meses depois, na casa do próprio Akkari em São Paulo.

Foi quando ele perguntou de tudo para guerri, que respondia ponto a ponto, sem deixar passar nenhum detalhe daquela que poderia ser uma oportunidade. “Ele perguntou pra mim se era possível eu fazer um time muito competitivo com jogadores brasileiros. Como que funcionava, como que funcionava lá fora, porque os times iam lá pra fora. Qual que era a diferença, a diferença de custo, investimento, GH.. Várias coisas.”

Encerrada a conversa, Akkari pediu para que um e-mail com todos os pontos debatidos fosse enviado. E lá foi guerri, mais uma vez, se lançar no PowerPoint. “Ele brinca comigo que foi um PowerPoint feio, mas foi até bonitinho.”

Com tudo feito, guerri pediu para que eles conversassem pessoalmente ao invés de enviar o material apenas por e-mail. “Ele se interessou e aí fomos conversando, conversando, conversando... Até que em agosto saiu do papel tudo o que a gente fez. A gente iniciou o time em agosto de 2017. A gente anunciou a FURIA.”

O Jaime Padua, que foi chamado para ser CEO, já estava envolvido desde maio daquele ano. Os Panteras surgiram com guerri, Spacca, vini, prd e caike.

Mais uma vez o trio guerri, Spacca e prd estava junto nos servidores. “O Spacca é meu amigo de vida, desde criança, desde moleque, desde os sete anos de idade. Conheço há muito tempo. Mas, por decisões profissionais, ele teve que me tirar algumas vezes do time, uma vez no 1.6, outra no CSGO. O prd a mesma coisa. Mas quando eu tivesse essa oportunidade de fazer um time competitivo, pelas habilidades deles e pela conexão que a gente tinha, eu sabia que eles poderiam estar lá para elevar a FURIA. Tirei qualquer coisa que aconteceu do passado, porque eu não sou um cara de guardar rancor. Zero. E a gente fez um time juntos.”

“A nossa estreia foi em 2017, comigo de capitão, e a gente já foi vice-campeão no primeiro torneio”, comentou guerri sobre a campanha na Gamers Club Liga Profissional em agosto daquele ano. Foi um segundo lugar contra a Team oNe.

MUDANÇA COMO TÉCNICO

“Só que aí começamos a acumular vices, e aí perdíamos pra oNe e pra Isurus. A Isurus... O nosso calcanhar de Aquiles. A gente perdia para esses dois times. Era sempre vice. A gente chegava na final de todos os torneios. Era o Vasco! E a FURIA não foi criada para ser vice. A gente queria muito mais. A gente tinha pretensão de ir para fora do país. Já existia a segunda fase do projeto”, explicou.

Como o objetivo precisava ser cumprido, mudanças eram necessárias. Foi quando guerri foi movido do time titular para ser técnico da equipe. “Foi uma parte bem difícil da minha vida, que eu... Eu sinto que amadureci demais, eu não era tão maduro quanto eu passei por aquele momento, que foi exatamente entre a minha troca entre ser jogador e virar coach. Foi uma fase bem complicada. Eu sofri.”

“Uma pessoa muito importante nesse momento foi o Jaime. O Jaime foi um cara muito maduro naquele momento. A gente conversou bastante sobre isso. Como mentor mesmo. O Akkari também. Conversei bastante com a minha família. Todo mundo falava a mesma coisa para mim: 'Guerri, você é muito bom fazendo o que você faz. Você tem qualidades muito boas. Elas não só muito boas, elas são excepcionais. E você sendo jogador, você não consegue usar elas. É porque você tem que focar em jogar melhor, em passar tática, isso e aquilo'. Então eu pensei: 'Porr*, não é possível que só eu ache que tenha que continuar e as pessoas que eu amo, que querem me ver feliz, me dizem outra coisa'.”

E foi o que aconteceu em 2 de fevereiro de 2018, quando guerri veio a público comunicar a mudança na carreira. A matemática até que foi simples na cabeça dele: com 28 anos nas costas, ele já não teria muito mais tempo de vida como pro player.

Era uma decisão estratégica. Ainda assim, com um porém. “Lembro muito bem de ter falado: ‘Jaime, olha, eu quero. Beleza? Vamo. Mas se eu não me sentir feliz e não achar que estou fazendo a diferença…’ Eu tenho que fazer diferença, tenho que sentir que estou fazendo diferença como coach. ‘Eu quero muito fazer a FURIA virar uma organização incrível e grande. Vou tirar o meu ego e a minha vontade de ser jogador…’ Porque existe essa parada que você quer conquistar como jogador, sabe. Eu quero conquistar eu ali dando tiro na cabeça dos caras.”

Só que a vida tratou de acalmar essa tormenta de guerri com a line-up reformulada, que agora era composta por yuurih, arT, vini, KSCERATO e Spacca. “Na primeira semana, os tiros que os caras davam era como se eu tivesse atirando. E aí pensei: ‘Eu não preciso jogar pra sentir tesão’... Eu fazia diferença. E aí começa: anti-tático, ver demo, estilo do time, montar o time, ter várias conversas com o arT, ajudar individualmente os meninos. Era tanta coisa e cada vez mais me motivava. Eu tinha cada vez mais vontade... O moleque jogar melhor era como se eu tivesse jogando melhor. A gente ganhar o título era como se eu tivesse jogando.”

A QUÍMICA COM A MOLECADA

Sobre essa nova fase pela FURIA, guerri ainda revelou alguns contos de bastidores envolvendo o elenco reformulado. Tendo Jaime como principal olheiro, algumas coisas aconteceram ou então chamaram a atenção naquele período.

“A gente apostou no arT, que era um jogador que jogou na Ilha da Macacada e na INTZ. Um cara que a gente sabia que jogava bem, mas ele não era nenhum... Tipo assim, as grandes orgs não olhavam pra ele. 'Pô, mas ele é meio doido, né?' Sabe quando eu confirmei o arT? Quando eu joguei contra ele um PUG e ele jogou que nem um doido, um cachorro, igual ele joga hoje. Aí eu: 'Caramba, será quê? Que filho da mãe, mano'. Beleza, vou jogar um camp com esse cara. E ele fazia as mesmas coisas! Foi quando me ganhou. Se ele faz a mesma coisa, a mesma cachorrice, é porque tem uma forma dele pensar pra fazer isso. Porque ele faz a mesma coisa no campeonato! É consciente.”

Outro que rendeu uma boa história foi KSCERATO, que, segundo o próprio guerri, “não era pra estar no time”. A entrada dele no time só se deu quando o técnico optou por sacar s1 após o mesmo estar em dúvida entre permanecer na FURIA ou seguir em outro time.

“Aí ele não se decidiu e eu falei: então acabou. Eu e o Jaime conversamos sobre o KSCERATO e definimos 'Vamos de KSCERATO, vamos dar essa chance pro moleque que ninguém conhece'. Ainda bem, né?”, comentou dando muitas risadas.

E houve certos ruídos nos primeiros dias de KSCERATO como jogador da FURIA. “Ele era um pouco mala”, disse sem rodeios o treinador. “Só que tipo… Eu já tinha 28 anos nas costas. Na primeira semana de time, a gente foi fazer uma análise e ele não pôde jogar porque eu tinha que jogar por conta da vaga na liga etc. Ele não jogou e a gente perdeu”, contou.

“Todo mundo sentado, eu fazendo a análise... E antes de eu começar, ele chegou pra mim e: 'Guerri, eu não joguei. Eu posso ficar no PC?' Aí, na hora, subiu meu sangue e falei: 'Pode ir, KS'. Fiz a análise, terminei a análise... Tinha uma varandinha lá na gaming house em Uberlândia. Deixei passar um tempo, aí puxei ele pra varanda. 'Olha, KSCERATO, deixa eu falar um negócio pra você: Quando você toma a decisão de me perguntar isso, você está falando pra mim que você não tem nada a aprender. E você não é porr* nenhuma, você tem muito a aprender, velho. E você não vai estar no meu time se você não quiser aprender todo dia, se você não quiser evoluir todo dia, se você não quiser ajudar os seus brothers. Então, mano, eu estou te falando como se você fosse meu filho. Muda essa sua cabeça'”, detalhou toda a conversa.

“Moleque... Nunca mais. Ele mudou! Foi da água pro vinho. Eu nunca mais tive problema com ele. Foi o único. Foi uma conversa séria porque, pra mim, o que ele fez foi muito feio.”

EXEMPLO DE PROFISSIONALISMO

Ao falar sobre o processo de ascensão meteórica da FURIA, guerri comentou sobre o profissionalismo que sempre reinou na organização. Ele enquanto comandante tinha a preocupação de manter a atmosfera a melhor possível para conseguir extrair o melhor de cada jogador. A tal da cultura...

“Essa parada de cultura de time foi uma parada que é muito do que eu sempre quiser ter, entendeu, quando eu era jogador. Eu sempre quis ter isso.

Para guerri, é fundamental que se tenha uma “conexão importante”. Isso está muito claro no DNA da FURIA, que faz trocas pontuais no elenco desde a criação da organização. “Você pode ver que todas as mudanças que fizemos no time, elas foram duradouras. Nenhuma mudança foi tipo... Um mês, dois meses, três meses, seis meses. Não teve!”

“O Spacca ficou por muito tempo, mais de um ano. O able ficou por um ano. O Henrique já vai completar um ano das mudanças. Então não teve mudança de menos de um ano. Poucas, né. Faz três anos que a FURIA começou, que a gente estreou. E tivemos só três mudanças: Spacca pelo able, e o Henrique pelo able. Foram poucas, né. A gente mantém a base. A base do time está junta a quase três. É tempo, cara.”

Caminho bem diferente do que a rival MIBR adotou nos últimos anos - e que culminou no desmantelamento da equipe de FalleN e companhia. A FURIA é um exemplo hoje, mas porque soube entender quando era necessário uma manutenção.

“É uma construção de conexão entre as pessoas, de time, de estilo, de reação, de receber feedback, de dar feedback. É muita coisa. A gente passou por muita coisa. A gente não pulou nenhuma fase. Foi muito dolorido. Vice, vice vice. Muda. Aí começa do zero… Vira o melhor time do Brasil, aí sai e vem pra fora. Começa a jogar bem. Tá numa Liga Advanced, aí depois é campeã. Depois MDL, aí no final da MDL, pra passar para Pro League, eu que tenho que jogar. Aí eu jogo, classifica. Pega vaga para Pro League. Continua jogando. Aí ganha da Astralis, bate Top-5, depois decai, vai lá pro 20 e pouco de novo, e aí muda de time. Põe o Henrique. Começa muito bem no campeonato, lá na Turquia, que foi um dos melhores campeonatos que a gente já jogou - e também um dos mais difíceis. Volta pro fim do ano abaixo do esperado. E aí começa 2020 totalmente diferente”, emendou guerri sobre toda a trajetória recente da FURIA sem respirar praticamente.

“Olha quanto tempo, olha quanta coisa até estar onde estamos hoje…”, falou agora de forma menos pilhada. “Quando eu olho pra trás, eu vejo os meninos. Eu vejo todos os jogadores muito novos assim, como seres humanos também - sem experiência, sem noção muito da vida, sabe. E hoje, eu percebo a evolução deles, que eles têm como atletas e como seres humanos, e eu fico muito feliz de saber que tenho parte dessa evolução.”

“Eles já são homens. Eles são homens, responsáveis, sabem se cuidar. Eles passaram por um processo difícil, e vão continuar passando porque ser atleta de alto desempenho não é fácil”, colocou na balança.

No fim do dia, guerri está cobrando dos seus comandados muita concentração. “Não é que você só tem que dar bala. Você tem que comunicar bem, tem que ajudar o seu parceiro. Você tem que reagir ao que o arT está falando. Você tem que ser um bom profissional, chegar no horário. Você precisa se alimentar bem, dormir bem. É um atleta. E ser atleta é ser criticado, é perder.”

O treinador até usou KSCERATO como exemplo em outra conversa com ele em particular. “'KSCERATO, você não pode gostar de ser a estrela do time e chegar em uma final e não jogar bem, velho. Você não tem esse espaço. Você tem que jogar bem. Se vira. Tá jogando menos CS? Então você vai jogar mais CS, velho. Vai jogar CS o diainteiro'. Então assim: 'Ah, perdemos pra Chaos? É pau. Vai escutar, mas vai escutar 'mermo'.”

Dá pra sentir nas palavras de guerri aquela mesma gana de quando era mais jovem e precisava conciliar faculdade, estágio e curso. “Olhar pra trás e ver o que a gente se tornou enquanto organização, e a evolução pessoal deles, eu acho que a minha participação está aí.” É uma pressão por evolução, não por resultados.

E em meio a essa rotina, guerri não esconde que precisa dosar, afinal, ele se cobra muito. “Eu tenho que estar sempre muito forte. Não posso estar fraco porque isso meio que respinga neles.” Mas até mesmo para isso o próprio treinador já projetou que, quando voltarem os torneios diferentes, a postura dele muito reativa ali no palco será diferente. “Essa vida aqui é todo dia aprendendo e querendo melhorar alguma coisa.”

No fim, é tudo para que a química permaneça boa. No fim, guerri é essa cola necessária na FURIA. “Eu já sei que tenho um impacto na vida deles e eles já mostram muito amor por mim, diariamente, a gente realmente é uma família.”

DEUS NO CÉU, MÃE NA TERRA… E PAI AUSENTE

Até mesmo pela analogia com família, a conversa com guerri precisou voltar para as origens, para aquele Nicholas Nogueira que morava em São Bernardo do Campo. Com tanta intensidade e planejamento durante a vida toda, seja na área de tecnologia, seja no Counter-Strike, é visível que algo pilhou guerri para ser um cara assim tão focado e disciplinado. Perceba que durante a conversa toda apenas a mãe foi citada e venerada.

Foi quando guerri precisou responder sobre sua família, mas agora de forma mais profunda. “Sou filho único…” E com um “agravante”, como ele mesmo respondeu logo em seguida: sem nenhum contato com o pai.

“Fui criado só pela minha mãe. Não tive figura paterna, a minha vida inteira”, reforçou. “Meu pai me largou antes de eu nascer e veio morar aqui nos Estados Unidos. A ideia era que eu nascesse pra cá, mas acabou que por coisas da vida eu nasci no Brasil. Eram outros tempos, e acabou que eu não tive contato, eu não conheci.. Sempre foi eu e minha mãe.”

Durante a infância, guerri era levado pela mãe até o trabalho porque não tinha com quem ficar. Maria Aparecida atuava como secretária - e sem nenhuma faculdade feita. Eles sobreviviam com 600 reais por mês. “A minha conexão com a minha mãe é muito grande desde sempre. Assim, é normal, é mãe, mas, assim… Eu entendo que a minha história tem uma conexão maior, entendeu, pelo que passamos juntos.”

Na época, Dona Maria e Nicholas chegaram a alternar entre morar de aluguel e morar junto com a avó dele. “Tiveram várias fases bem complicadas na minha vida, mas que minha mãe nunca me deixou faltar nada. Ela nunca comprava nada pra ela para me dar o que eu precisava. Não tô falando de brinquedo, tô falando de um bom estudo, de comida, de transporte, sempre nesse sentido.”

Tudo isso sem nenhum apoio do pai. “O meu pai nunca teve presença financeiramente nem presencialmente... E eu nunca senti falta, sabe, porque minha mãe sempre foi muito foda pra mim. Eu nunca senti necessidade de ter um pai, nunca senti falta do afeto.”

E a relação entre mãe e filho sempre foi como um porto-seguro. Drama de todo jovem que pretende trilhar o caminho profissional como pro player, guerri sabe que aquele ano sabático que ele tirou logo após o colégio não incomodou Maria Aparecida. O problema mesmo foi quando ele, já depois de formado e ganhando muito bem, disse que apostaria na vida de jogador profissional de CSGO.

Como ele mesmo reforçou: ele passaria a ganhar 10 vezes menos e estaria deixando para trás uma carreira sólida, com vasta experiência e inúmeras certificações. “Eu não consigo descrever como foi o baque pra ela”, contou já com a mente claramente em outro lugar… A voz mais lenta do que o costume pilhado de conversar.

“Eu lembro bem da situação, de eu chegar em casa e conversar com ela, e ela falar assim: ‘Filho, eu sei que é difícil a situação, mas se for pra sua felicidade, eu estou do seu lado’. Eu sei que pra ela foi mais difícil que isso, tá ligado... Mas ela sempre fala essa frase pra mim: 'Se você está feliz, eu tô feliz'. E ela sempre me apoiou a vida toda. Acho que muito pela história entre a gente.”

“Deus no céu, minha mãe na Terra. E acabou, entendeu”, disse em bom tom, mas de forma mais seca.

Com tudo o que vem conquistado pela FURIA, guerri fica tranquilo que hoje pode dar uma boa aposentadoria para sua mãe. “Graças a Deus hoje consigo bancar ela. Tô cuidando dela. Fiquei muito preocupado nessa época de pandemia, de corona, ela já tem mais de 60. E eu não tô perto. É difícil, é difícil. Tem que ir pra minha avó... Não é tão fácil quanto parece. Mas ela é muito consciente, ela me escuta muito também.”

“Tenho certeza que ela sofreu muito mais por dentro, mas ela me apoiou. Se você está feliz, eu tô feliz”, repetiu como se fosse um mantra, já intercalando os pensamentos de forma que não fizesse sentido, mas que fazia todo o sentido também.

Perguntado se a forte conexão com a mãe e a ausência do pai refletiam no jeitão dele família com os meninos, seus filhos, na FURIA, guerri desconversou. “Eu não sei se tem algum paralelo, mas talvez tenha… É muito profundo isso. Acho que realmente foram as experiências da minha vida, mas eu já tenho um perfil de, tipo assim... Se é meu amigo, vou matar e vou morrer, sabe?”

Fato é: guerri sempre se fez presente com os jogadores da FURIA. Às vezes, bem tiozão mesmo. “A gente saia assim e eu contava pra ver se tava todo mundo, sabe... Eu sou assim. Eu sou preocupado, eu me sinto responsável por eles. E acho que vai ser assim na vida.”

Enquanto isso, Nicholas precisava carregar a própria cruz. “Tiveram momentos em que eu precisei largar um pouco a mão porque eu percebia que me prejudicava, que não tinha tempo para mim, que só me preocupava com o time. Mas se eu não cuidava da minha cabeça, eu não conseguia cuidar de ninguém, entendeu. Eu tive que passar por esse processo de amadurecimento. Errando, sofrendo…”

De qualquer jeito, no fim do rolê, guerri está onde precisava estar. Mesmo com tanto planejamento, cursos… Nem o mais detalhado dos PowerPoints contemplaria esse momento. “Acordo todo dia e agradeço por ter essa vida. Por trabalhar com o que eu amo. Eu sou viciado em fazer o que eu faço. Não tenho nada a reclamar da minha vida. Não gosto de reclamar. Sou muito agradecido. Eu passo isso muito para os meninos.”

“É a minha vida, entendeu?”

Sim, guerri. Quando olhamos para a FURIA e batemos os olhos em você, entendemos.

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