Meio Ambiente Recuperar 30% de áreas degradadas pode salvar 71% das espécies e reduzir aquecimento global

19:10  14 outubro  2020
19:10  14 outubro  2020 Fonte:   estadao.com.br

Degelo do Ártico resultado do aquecimento global pode liberar vírus e bactérias mortais

  Degelo do Ártico resultado do aquecimento global pode liberar vírus e bactérias mortais A expedição científica do Instituto Alfred-Wegener, a maior já realizada no Polo Norte, retornou para a Alemanha nesta semana, com conclusões nada animadoras sobre as mudanças climáticas. A equipe do navio quebra-gelo Polarstern verificou que a camada de gelo do Ártico está derretendo “a um ritmo alarmante”. O processo pode levar à emergência de vírus e bactérias mortais, que se encontram “adormecidos” nas camadas mais profundas sob o gelo. – Calor dos últimos dias tem a ver com aquecimento global e veio para ficar, diz especialista © Kauê Vieira A expedição contou com especialistas de 20 países, que pesquisaram por mais de um ano na região – a maior parte

Com o avanço das mudanças climáticas e das previsões de que o planeta pode enfrentar em algumas décadas uma grande extinção de espécies, especialistas têm defendido a necessidade de não apenas de conservar as florestas que ainda existem como de restaurar as que foram desmatadas ou degradadas. O desafio, em geral visto como complexo e caro, acaba de receber uma ferramenta que pode ajudar a torná-lo mais factível.

Um grupo internacional de 27 pesquisadores de 12 países, liderado por um brasileiro, fez um mapeamento dos ecossistemas em todo o mundo e calculou que a restauração de 30% deles em áreas prioritárias pode evitar mais de 70% das extinções mamíferos, anfíbios e pássaros terrestres e absorver quase metade do carbono acumulado na atmosfera desde a Revolução Industrial, ou 466 bilhões de toneladas de gás carbônico.

Calor dos últimos dias tem a ver com aquecimento global e veio para ficar, diz especialista

  Calor dos últimos dias tem a ver com aquecimento global e veio para ficar, diz especialista O Brasil está enfrentando uma onda de calor pouco usual. Enquanto alguns recusam a existência do aquecimento global, a maior parte das cidades brasileiras enfrente temperaturas acima dos 35º C. As temperaturas recordes (44º C em Cuiabá, por exemplo, ou os 43,6 ºC em Lins, interior de São Paulo) mostram que o nosso país está sofrendo diretamente com a mudança climática. As queimadas no Pantanal e na Amazônia, causadas pelo homem, tiveram essas proporções enormes por conta do ar seco e do calor causados pelo aquecimento global.

 Estudo mostra que restauração de 30% de áreas degradadas no Brasil poderia ajudar a salvar espécies ameaçadas, como a onça-pintada © Dida Sampaio/ESTADÃO Estudo mostra que restauração de 30% de áreas degradadas no Brasil poderia ajudar a salvar espécies ameaçadas, como a onça-pintada

O trabalho, publicado nesta quarta-feira, 14, na revista Nature, estima que em todo o mundo, 2,87 bilhões de hectares de ecossistemas foram convertidos em terras agrícolas. Dessas áreas, mais da metade (54%) era originalmente floresta, 25% eram pastagens naturais, 14% estepes, 4% terras áridas e 2% pântanos.

A ideia não é que isso tudo retorne às condições naturais – até porque há importantes cultivos agrícolas nessas regiões –, mas focar a restauração onde ela seria mais efetiva tanto em termos de custo quanto de resultados para os serviços ambientais. Ou seja, salvar mais espécies e ainda retirar mais carbono da atmosfera. Para isso, os pesquisadores mapearam os ecossistemas em todo o mundo e os dividiram conforme sua importância.

Entenda o que é efeito de borda

  Entenda o que é efeito de borda Efeito de borda é uma alteração na estrutura, composição ou quantidade de espécies na parte marginal de um fragmento vegetal Imagem editada e redimensionada de Ibama, está disponível em Flickr e licenciada sob CC by 2.0 A constante substituição de grandes áreas nativas por ecossistemas diferentes, como pastagens e campos agrícolas, leva à criação de fragmentos vegetais isolados e imersos em uma matriz antrópica. A origem desses fragmentos implica na formação de uma borda florestal, definida como uma região de contato entre a área ocupada e o fragmento de vegetação natural, promovendo mudanças nos parâmetros físicos, químicos e biológicos do sistema, como disponibil

Se os países resolvessem se concentrar em recuperar apenas 5%, eles deveriam focar nas áreas vermelho-escuras, se o plano for 10%, já entram as áreas vemelho-claras, 15%, as laranjas, e assim por diante (veja o mapa abaixo). O Brasil tem várias áreas entre as mais prioritárias, concentradas principalmente na Mata Atlântica, no sul e leste da Amazônia e no Cerrado.

Pela análise, cerca de 200 milhões de hectares de vegetação nativa foi convertida no País. Restaurar 15% disso, ou 30 milhões de hectares, nas áreas prioritárias, poderia salvar espécies simbólicas do Brasil, como a onça-pintada e o mico-leão-dourado. O País tem hoje cerca de 400 animais e 200 espécies de plantas ameaçadas de extinção, como também o tamanduá-bandeira, o bugio marrom, a ariranha, a palmeira-juçara, o pau-brasil, o jequitibá-rosa e a peroba.

No mapa, o Pantanal brasileiro não está destacado, porque o estudo foi concluído antes da temporada de fogo atual, quando ainda se considerava que cerca de 81% do bioma estava bem preservado. O líder do grupo, o brasileiro Bernardo Strassburg, professor do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio e diretor-executivo do Instituto Internacional para Sustentabilidade, ressalta, porém, que a região está entre as mais prioritárias agora para a restauração.

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  A arquitetura que combate o calor em prédios, sem o uso de ar-condicionado À medida que as temperaturas globais sobem, a demanda por ar-condicionado aumenta – mas há maneiras de resfriar os edifícios sem recorrer ao aparelho.Mas as portas são feitas de vidro e, dentro delas, não há a decoração aconchegante da “toca” dos Hobbits – você encontra apenas uma série de braços e alavancas mecânicas de aço, que mantêm algumas portas entreabertas.

"Em todo o mundo, as áreas alagadas, ou wetlands, como o nosso Pantanal, estão entre as mais importantes para a biodiversidade quanto para conter as mudanças climáticas. Se o mapa fosse refeito hoje, 1/3 do Pantanal estaria completamente vermelho", disse Strassburg ao Estadão.

Conservação aliada à produção

“O Brasil é basicamente todo vermelho e amarelo. Tudo aqui é muito relevante para a biodiversidade e para a regulação do clima. Esse mapa deve ser olhado como um ativo estratégico se o País quiser fazer parte desse mercado internacional de serviços ecossistêmicos”, complementou o pesquisador.

Ele afirma que cerca de 75% do que foi desmatado no Brasil ao longo dos séculos se transformou em pastagens, muitas delas hoje degradadas. “A rentabilidade de pastagem é muito modesta perto do que se poderia ganhar com um mercado de carbono. A maioria dos lugares tem um boi por hectare quando facilmente poderia ter 3”, diz. Segundo ele, melhorar essas condições é que vai possibilitar que a restauração seja feita sem que haja interferência na produção agrícola.

Grilagem faz floresta virar fumaça no sul do Amazonas

  Grilagem faz floresta virar fumaça no sul do Amazonas Grilagem faz floresta virar fumaça no sul do AmazonasDarlene não está sozinha na sua percepção. O secretário geral do Conselho Nacional das Populações Extrativistas no Amazonas, Dione Torquato, tem 33 anos. É 1 homem jovem, mas já vivenciou diversos tipos de conflitos contra populações tradicionais da Amazônia. “Essas situações são históricas no sul da região”, avalia. Na opinião dele, a maior motivação para essas situações é a grilagem de terras.

Essa preocupação foi considerada pelo estudo, que busca trazer respostas para muitas das ressalvas que se fazem hoje, especialmente no agronegócio, em relação à restauração florestal. Os pesquisadores estimaram que com o aumento da produtividade da agropecuária em todo o mundo e uso de técnicas mais sustentáveis e intensivas, até 55% das áreas desmatadas ou degradadas poderiam ser recuperadas sem afetar o suprimento de alimentos.

"Resolvendo a subutilização, a subprodutividade das áreas de pastagem e usando melhor o que já foi desmatado, é possível conciliar a produção com a conservação. Podemos chegar ao desmatamento zero no mundo todo, com a restauração de até 55% das areas já convertidas sem impactar a producao de alimentos", completa o pesquisador.

Segundo ele, quando se leva em conta, ao mesmo tempo, os ganhos para as mudanças climáticas, para a biodiversidade, e o custo benefício, a tarefa também se torna interessante financeiramente. "Restaurar os locais prioritários aumenta em até 13 vezes o custo efetividade da restauração", diz.

O trabalho foi feito sob encomenda da ONU, que elegeu o período de 2021 a 2030 como a década para a restauração de ecossistemas, o que vem gerando atenção para o desafio. Metas lançadas pela ONU em 2010 previam a restauração de 15% dos ecossistemas, mas não só se falhou em alcançar isso como hoje já se considera que é preciso aumentar a ambição. Estudos estimam que um milhão de espécies estão em risco de extinção nas próximas décadas.

Além disso, há uma compreensão que recuperar os ecossistemas é uma das formas mais baratas de conter o aquecimento global – na comparação com medidas tecnológicas mais caras, como reduzir o consumo de combustíveis fósseis ou aumentar a eficiência energética –, visto que, ao crescerem, as árvores absorvem o CO2 que está na atmosfera.

Petição pede para autódromo do Rio não ser construído .
O autódromo é forte candidato a receber o GP do Brasil de Fórmula 1 a partir de 2021 . © Divulgação O autódromo é forte candidato a receber o GP do Brasil Se obtiver a licença ambiental, o autódromo será erguido no bairro de Deodoro em área de Mata Atlântica, conhecida por Floresta do Camboatá. De acordo com especialistas, é uma das últimas áreas do estado do Rio com este tipo de ecossistema. "Precisamos da ajuda de todos que amam a natureza, pois não queremos um autódromo nesta região", diz um dos trechos da petição.

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