Meio Ambiente Mudanças climáticas desafiam modelo atual de grandes monoculturas

19:51  22 outubro  2021
19:51  22 outubro  2021 Fonte:   folha.uol.com.br

COP26: O que é a conferência do clima em Glasgow e por que ela será tão importante

  COP26: O que é a conferência do clima em Glasgow e por que ela será tão importante Líderes mundiais vão se reunir do dia 31 de outubro a 12 de novembro na Escócia para discutir novos compromissos para mitigar as mudanças climáticas.A Terra está aquecendo por causa da emissão de combustíveis fósseis pela ação humana. Eventos climáticos extremos ligados às mudanças climáticas, como ondas de calor, alagamentos e incêndios florestais, estão se intensificando. A década passada foi a mais quente já registrada, e governos concordam que uma ação coletiva urgente é necessária.

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, SP (FOLHAPRESS) - Entre os 364 produtores do assentamento Santo Angelo, Ivo Bernardo da Silva está ilhado. Dono de um sítio em Mogi das Cruzes, cinturão verde que abastece a maior cidade da América Latina, São Paulo, ele diz ser o único que cultiva alimentos sem agrotóxicos.

São 37 variedades, incluindo hortaliças e condimentos, que crescem em quatro mil metros quadrados cuidados por Silva, 67, e a namorada. Só dos vários tipos de alface, eles colhem 18 mil pés por ano.

"A gente cuida da natureza e ela devolve assim, com comida de qualidade", afirma.

Recursos usados no cultivo vêm do próprio sítio: a água da chuva armazenada ou do poço artesiano irriga as plantas; o adubo é resultado da compostagem, feita ali mesmo.

Um guia rápido para entender as mudanças climáticas

  Um guia rápido para entender as mudanças climáticas A temperatura do planeta está aumentando em decorrência das atividades humanas, e as mudanças climáticas ameaçam todos os aspectos da nossa vida na Terra.Se a situação não for controlada, os humanos e a natureza passarão por um aquecimento catastrófico, com o agravamento das secas, maior aumento do nível do mar e extinção em massa de espécies.

A rotina de trabalho é um meio de oferecer à população acesso a alimentos saudáveis, cultivados de forma sustentável, diz Silva. "Acredito nos pequenos, na agricultura familiar", afirma o produtor, que vende o que colhe diretamente aos consumidores.

O modo adotado por Silva é um dos caminhos apontados pela ciência para garantir segurança alimentar num mundo que precisa passar por uma transição rápida de modelo.

"As mudanças climáticas estão ocorrendo. A grande agricultura de impacto ambiental muito forte precisa mudar. Todo mundo já entendeu isso, de consumidores a produtores", diz Gustavo Chianca, representante no Brasil da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura).

O custo real desse impacto para a saúde do planeta e de seus habitantes quase não aparece nos preços finais dos alimentos. É o que mostra um projeto das universidades de Greifswald e Augsburg, na Alemanha, em conjunto com uma rede de supermercados.

Série de vídeos mostra como a mudança no clima já afeta o Brasil

  Série de vídeos mostra como a mudança no clima já afeta o Brasil Agência FAPESP – O Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) lançou uma série de vídeos curtos sobre como as mudanças climáticas estão afetando o Brasil. São cinco episódios, cada um sobre um tema específico, em que cientistas e especialistas apontam dados sobre a nossa situação atual, o que pode acontecer caso o ritmo de poluição e desmatamento continue igual e que medidas os cidadãos podem tomar para ajudar a frear o aumento das temperaturas e os desequilíbrios no nosso país.

Ao calcularem custos ecológicos e sociais de vários alimentos, os pesquisadores constataram grande diferença entre os preços nas gôndolas e os valores reais.

"Os produtos de origem animal têm um desempenho particularmente ruim", dizem os cientistas. A carne moída, por exemplo, teria que custar o triplo se fossem consideradas emissões de gases de efeito estufa, mudanças no uso do solo e consumo de energia no processo de produção. Já os alimentos orgânicos de origem vegetal são os que têm preços mais "reais", por respeitarem mais o ambiente.

"Uma internalização desses custos resultaria na correção dos preços de mercado, e o comportamento de compra seria ajustado de acordo com a sustentabilidade", escreveu sobre os resultados a pesquisadora Amelie Michalke.

Independentemente do tamanho da propriedade ou da cadeia produtiva, fatores urgentes precisam entrar em definitivo para a equação, alerta Leandro Giatti, pesquisador que integra a recém-criada Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis, da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

4 questões definirão o sucesso da COP26

  4 questões definirão o sucesso da COP26 Por WRI Brasil em WRI Brasil – No melhor cenário, a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP26) precisa reconstruir a confiança de que a ação global e coletiva pode resolver os maiores desafios da humanidade. Depois do relatório preocupante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em meio a meses de eventos climáticos extremos sem precedentes e com impactos devastadores, governos e outros atores devem ir a Glasgow determinados a reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa (GEE) ainda nesta década e a enfrentar os impactos climáticos presenciados em todo o mundo.

"A produção de alimentos é avaliada pela produtividade e o lucro. Não dá mais para fazer isso. É preciso fazer o balanço da disponibilidade de energia, e o custo que essa energia vai gerar em outras regiões. O mesmo vale para a água", diz Giatti.

Com o padrão vigente, não seria possível oferecer alimentos a uma população crescente e cuidar do meio ambiente ao mesmo tempo, avalia Manuela Santos, pesquisadora da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

"Esse modelo de cultivo em larga escala, de monocultura, altamente dependente de insumos de fora da propriedade, não é a resposta que precisamos", diz.

Uma alternativa seria o incentivo a produções sustentáveis em pequena escala que, organizadas em cooperativas, conseguem abastecer grandes mercados, sugere Santos.

"As cadeias de abastecimento são longas, os pequenos produtores ficam à margem. Se não se organizam, se não têm capacidade de chegar ao consumidor final, fica mais difícil", afirma Santos, ressaltando que mais transparência nesse processo traria um grande impacto positivo.

Pelos critérios definidos por lei, são produtores familiares os que têm até quatro módulos fiscais (medida de área que sofre variação conforme o município), usam mão de obra da família e têm renda vinculada ao estabelecimento.

Emergência climática trará tensões globais, aponta relatório do serviço de inteligência dos EUA

  Emergência climática trará tensões globais, aponta relatório do serviço de inteligência dos EUA As mudanças climáticas não são somente uma ameaça ao futuro ambiental do planeta, mas também à segurança nacional dos EUA e à estabilidade política do planeta: essa é a mais importante conclusão de um relatório desenvolvido pelas 18 agências de inteligência do governo dos EUA sobre o tema, primeiro documento a relacionar os efeitos da crise climática sobre a segurança do país. Intitulado “Estimativa Nacional de Inteligência sobre as Mudanças Climáticas“, o relatório de 27 páginas parte da imensa desigualdade social e econômica para compreender que as mudanças climáticas podem se tornar um campo de batalha geopolítica ao invés de uma oportunidade de cooperação inter

A agricultura familiar corresponde a 77% das propriedades rurais do país, mas ocupa 23% da área total de estabelecimentos contabilizados no último Censo Agropecuário. Ela produz parte considerável do que vai para a mesa brasileira, como leite, mandioca, abacaxi, alface, feijão.

"A agricultura familiar garante muitas vezes o alimento que é consumido no dia a dia da população, mas também está envolvida no agronegócio exportador. É ligada à diversidade de alimentos, tem a tendência de ser mais sustentável, mas é preciso aprofundar, também na agricultura familiar, o conceito de produzir e de preservar", argumenta Chianca.

Essa é a missão de Veridiana Vieira, da Repoama, Rede de Produção Orgânica da Amazônia Mato-Grossense.

Em sua tentativa de ampliar os agricultores adeptos dessa prática, ela encontra resistência. "A primeira coisa que ouvimos é que eles não vão conseguir produzir sem veneno. Nosso trabalho é mostrar que é possível, e mais vantajoso".

O primeiro benefício, explica Veridiana Vieira, é a economia de insumos agrícolas. O grupo troca sementes, esterco e experiências. E faz compras coletivas, o que deixa tudo mais barato.

"São muitos benefícios, mas o principal é a preservação. Ao não usar agrotóxico, você melhora a qualidade da água, do solo, atrai mais polinizadores", acrescenta.

"Existem outras coisas que não dá pra contar em dinheiro, como o aumento do bem-estar, da saúde, a redução de alergias nas crianças", cita ela, resumindo experiências contadas por integrantes da rede.

Cobrança por metas mais ambiciosas e financiamento deve marcar COP26 .
Cobrança por metas mais ambiciosas e financiamento deve marcar COP26Para a Organização das Nações Unidas (ONU), as conclusões do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), divulgado em agosto, devem servir de alerta vermelho sobre o uso de energias fósseis. Elaborado por 234 autores de 66 países, o estudo mostrou que, nos últimos 50 anos, a influência humana levou o planeta à trajetória de aquecimento mais rápida em 2 mil anos e já produziu uma temperatura média que supera o período pré-industrial em mais de 1 grau Celsius (°C).

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