Mundo Opinião: O mito Hong Kong se desfaz

21:42  30 junho  2020
21:42  30 junho  2020 Fonte:   dw.com

China "lamenta" que Austrália ofereça refúgio a cidadãos de Hong Kong

  China A China criticou nesta quinta-feira a decisão da Austrália de oferecer refúgio a milhares de cidadãos de Hong Kong e de suspender um acordo de extradição com o território, medidas que chamou de "interferência" em seus assuntos. A Austrália decidiu prorrogar por cinco anos os vistos para que os quase 10.000 cidadãos de Hong Kong residentes em seu território possam permanecer no país. Também sugeriu a possibilidade de iniciar uma via legal para a residência permanente destas pessoas.

Pequim aprovou a nova lei de segurança para o território semiautônomo. Em clima de autoritarismo, a população de Hong Kong tem razão para temer por suas liberdades, opina o ativista pró-democracia Nathan Law.

  Opinião: O mito Hong Kong se desfaz © picture-alliance/AP Photo/V. Yu

A lei de segurança nacional aprovada por Pequim nesta terça-feira (30/06) inquietou seriamente os cidadãos de Hong Kong nas últimas semanas. Em círculos privados e na esfera pública, ela foi descrita como um duro golpe contra nossa sociedade civil, enquanto seu tom conspirativo e falta de clareza agravam nossos medos.

Pois até o momento ninguém no território semiautônomo, possivelmente nem nossa chefe de governo, Carrie Lam, conhece a letra da lei, a ser divulgada nos próximos dias. O parlamento local, o Conselho Legislativo, não teve o menor contato com o projeto de lei. Assim, o governo chinês mostra mais uma vez quem dá as ordens em Hong Kong.

Polícia de Hong Kong proíbe manifestação contra Lei de Segurança

  Polícia de Hong Kong proíbe manifestação contra Lei de Segurança A polícia de Hong Kong proibiu neste sábado (27) uma manifestação contra o plano do governo chinês de aprovar uma Lei de Segurança, cujos críticos temem que reduza as liberdades deste território semiautônomo. Segundo a Frente dos Direitos Humanos Civis (Civil Human Rights Front, CHRF), a polícia rejeitou o pedido de manifestações para 1º de julho, o 23º aniversário da devolução dessa ex-colônia britânica à China. A polícia mencionou o risco de violência e argumentou que a mobilização pode "representar um sério risco para a saúde pública", devido à epidemia de COVID-19.

Assim, até agora as questões decisivas permanecem sem resposta: que "crimes" a lei visa, exatamente? Os "crimes" também serão averiguados retroativamente? Os réus responderão a processos em Hong Kong ou no continente? Quais são as penas máximas?

Todos os cidadãos se questionam se continuarão gozando da usual liberdade de opinião. Para ativistas políticos como eu, colocam-se também questões mais concretas: quando a nova polícia secreta, que Pequim estacionou no território, vai bater às nossas portas e nos levar em custódia?

Antes, nós, cidadãos de Hong Kong, podíamos partir do princípio que nosso governo agiria como uma espécie de escudo protetor em relação à liderança chinesa, dentro do princípio "um país, dois sistemas". A chefe do Executivo, embora não eleita diretamente, apresentaria nossas apreensões a Pequim, como advogada honesta, caso lá fossem tomadas decisões contrárias a nossa forma de vida e posicionamento.

Microsoft e Zoom aderem a campanha contra a censura em Hong Kong

  Microsoft e Zoom aderem a campanha contra a censura em Hong Kong Microsoft e Zoom aderem a campanha contra a censura em Hong KongNo final de junho, o País aprovou uma legislação que criminaliza atos de apoio à independência e facilita a punição dos manifestantes. Se as empresas de tecnologia tornarem suas decisões permanentes, poderão enfrentar restrições ou proibição de seus serviços na região.

No entanto esse mito se dissolveu no ar. Durante os protestos dos últimos 12 meses, Carrie Lam não teve a capacidade de tomar nenhuma decisão de verdade, ela não é muito mais do que uma marionete de Pequim. Os membros de seu gabinete admitem não ter nenhuma influência, nem nada ter a dizer sobre a lei de segurança: eles não sabem mais do que informa a mais superficial leitura de jornal. Apesar disso, nos aconselham a "confiar" em Pequim, pois a lei promete estabilidade, dizem.

Os representantes governamentais procuram tornar palatável um produto que sequer conhecem. De onde tiram a certeza de que a lei será positiva para Hong Kong? Como podem acreditar a sério que vamos concordar cegamente com uma lei tão controversa? Quão derrotada está a noção de "um país, dois sistemas", se o projeto de lei mais abrangente desde 1997 tem que ser imposto passando ao largo do Legislativo de Hong Kong?

Pompeo alerta para novas medidas contra Pequim, depois de 'dia triste' para Hong Kong

  Pompeo alerta para novas medidas contra Pequim, depois de 'dia triste' para Hong Kong O chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Mike Pompeo, alertou Pequim de mais retaliação por aprovar uma lei que restringe liberdades e autonomia para Hong Kong, no que ele chamou de "dia triste". "Hoje é um dia triste para Hong Kong e para todos os amantes da liberdade na China", afirmou o secretário de Estado. Ele também alertou que seu país "não ficará parado à medida que a China engolir Hong Kong com sua boca autoritária", depois que o presidente chinês, Xi Jinping, promulgou uma lei de segurança nacional para a ex-colônia britânica. A lei é apontada por seus detratores como uma tentativa de silenciar a oposição em Hong Kong.

Com tal procedimento, Pequim mostra qual é sua intenção: Hong Kong deve ser transformada numa cidade chinesa entre outras, preservando-se o invólucro externo. Assim se procura enganar o exterior, fazendo-o acreditar que Hong Kong seguirá sendo um território semiautônomo. Sob essa capa Pequim pretende continuar se beneficiando econômica e politicamente dos vínculos internacionais da região.

Para aplicar essa estratégia de amplo alcance, Pequim persegue uma política de intimidação dentro de Hong Kong. Cada vez mais habitantes consideram voltar as costas para a cidade; outros se distanciam de declarações políticas anteriores ou as tornam irreconhecíveis, para não ser difamados por conhecidos ou colegas.

Se não houver mais livre fluxo de informações e opiniões, será o fim da identidade de Hong Kong como cidade livre. Que futuro terá a antiga "Pérola do Oriente" se seus talentos forem embora para poder respirar mais livremente em outro lugar, se firmas transferirem suas subsidiárias para locais mais liberais, se os jovens estiverem em constante confrontação com um regime autoritário?

Johnson promete facilitar vistos para cidadãos de Hong Kong

  Johnson promete facilitar vistos para cidadãos de Hong Kong Medida é reação à nova lei de segurança nacional da China    Em audiência na Câmara dos Comuns, o premiê disse que a extensão dos direitos migratórios para cidadãos de Hong Kong será uma resposta à nova lei de segurança nacional imposta pela China.

Agora, a questão não são possíveis sentenças de anos de prisão contra ativistas pró-democracia como Joshua Wong, Jimmy Lai ou eu: trata-se da ameaça de destruição de tudo o que até agora Hong Kong representava. Observadores racionais de fora constatam essa tendência com consternação.

Do ponto de vista do presidente chinês, Xi Jinping, contudo, a situação é outra: distúrbios em Hong Kong e na China podem ser úteis para ele consolidar sua posição de líder partidário forte. As necessidades dos habitantes do território lhe são indiferentes. Mas, quem sabe, no fim não vai ser só Hong Kong a sucumbir em consequência dessa estratégia agressiva.

Nathan Law é um ativista pró-democracia da Região Administrativa Especial de Hong Kong. Em 2016, aos 23 anos, foi eleito para o Conselho Legislativo como o mais jovem parlamentar. Mais tarde, perdeu seu mandato por, segundo o tribunal, não ter se expressado de acordo com a Constituição ao tomar posse.

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Autor: Nathan Law (av)

China aprova lei de segurança nacional para Hong Kong, diz imprensa local .
O parlamento chinês aprovou nesta terça-feira a controversa lei de segurança nacional para Hong Kong, informou a imprensa do território semi-autônomo, levantando temores de uma repressão por qualquer oposição política na ex-colônia britânica. O parlamento nacional de Pequim adotou o texto por unanimidade, informaram nesta terça a Now TV, RTHK e South China Morning Post. Esta lei, cujo objetivo declarado é reprimir "separatismo", "terrorismo",O parlamento nacional de Pequim adotou o texto por unanimidade, informaram nesta terça a Now TV, RTHK e South China Morning Post.

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