Mundo 'Vivemos em uma cultura sem memória', afirma o escritor Salman Rushdie

11:50  01 maio  2021
11:50  01 maio  2021 Fonte:   estadao.com.br

Dez livros essenciais indicados pela equipe do 'Aliás' em abril

  Dez livros essenciais indicados pela equipe do 'Aliás' em abril Lista contém obras inéditas e relançamentos que não podem passar em brancoMorto há 21 anos, o premiado escritor italiano Giorgio Bassani encontrou no diretor Vittorio de Sica o intérprete ideal para o cinema de seu mais popular romance, O Jardim dos Finzi-Contini, publicado em 1962 e transformado em filme em 1970, ganhando, inclusive, o Oscar de melhor filme estrangeiro (1972). Bassani deveria ter sido o co-roteirista ao lado de Vittorio Bonicelli e Ugo Pirro, mas terminou abandonando a produção por discordâncias artísticas – e não ideológicas, uma vez que tanto ele como De Sica lutaram contra o fascismo (Bassani chegou a ser preso em 1943).

Salman Rushdie (Bombaim, 1947) viu um dia como um senhor de franja laranja entrava com maus modos em seu novo romance. The Golden House (ainda sem edição em português) estava centrado na vida de uma opulente família da Índia que chega a Nova York escapando de um destino fatal. Em tom de tragédia grega, a história para a qual o escritor havia pausadamente pesquisado escondia lúcidas metáforas sobre a inversão de valores e a natureza do mal. Mas a realidade foi mais rápida, acompanhava bem demais o retrato alegórico da decadência moral, e o autor de Os Filhos da Meia Noite se viu

Em Imaginary Homelands (1991), Salman Rushdie afirma ser um "homem traduzido"; um escritor migrante, que, tendo passado pela experiência de viver em outros países, imprime em sua obra as inquietações do diálogo entre culturas. Shalimar, o equilibrista (2005), seu último romance, contém uma combinação de todos os temas recorrentes em sua obra, promovendo não apenas o diálogo entre ficção e história, mas também um mergulho nas motivações humanas e na reflexão sobre questões identitárias. Ao revisitar temas como vergonha e honra, dando-lhes um tratamento atualizado pelo olhar

“Preciso sair da cidade grande e escrever um romance panorâmico, que atravesse o país”, pensava o escritor britânico (de origem indiana) Salman Rushdie, depois de publicar duas obras ambientadas em Nova York. O clique veio quando foi convidado a escrever sobre Dom Quixote, a obra-prima de Miguel de Cervantes, título fundamental da literatura ocidental. Assim nasceu Quichotte, sátira na qual os personagens desbravam o interior dos EUA, um país à beira do colapso moral e espiritual.

O romance, que agora ganha tradução pela Companhia das Letras, foi escrito durante o governo de Donald Trump, o que influenciou decisivamente a escolha de temas urgentes, como a defesa da miscigenação. Inspirado na trajetória de Quixote, o cavaleiro errante, a trama de Rushdie acompanha um medíocre autor de romances policiais, Sam DuChamp, que cria Quichotte, um caixeiro-viajante de origem indiana e fissurado por programas de TV, notadamente reality shows – no original de Cervantes, o herói é obcecado por romances heráldicos.

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  Por onde começar a ler os grandes autores da literatura russa Irineu Franco Perpetuo lança 'Como Ler os Russos' e dá dicas aos leitores do 'Estadão' de autores e obras fundamentais da literatura russa Eu poderia passar a vida falando disso, mas vou tentar ficar em dez: ‘Ievguêni Oniéguin’, de Puchkin Obra-prima do pai fundador da literatura russa ‘Almas Mortas’, de Gogol Uma sátira delirante e implacável ‘Pais e Filhos’, de Turguêniev Mistura sedutora de romance político e conflito de gerações ‘Anna Karenina’, de Tolstoi A mais fascinante personagem feminina da literatura russa, em seu romance melhor acabado ‘Os Irmãos Karamazov’, de Dostoievski A culminância

Salman Rushdie em Paris em 10 de setembro de 2018. Nós vivemos em um mundo onde existem muitas outras razões para ter medo De Nova York, onde vive há 20 anos ( o escritor nasceu em Bombaim, na Índia, em uma família muçulmana, mas viveu a

Salman Rushdie veio a Portugal participar no Folio, o Festival Literário Internacional de Óbidos. Nesta entrevista, falou do seu último livro, Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites, uma obra que os críticos consideram “engraçada”. “Finalmente, permitem-me voltar a ser engraçado”, disse o escritor sobre quem ainda pesa a ameaça de morte, desde a publicação de Os Depois daquilo, quem quiser contar a história de Nova Iorque terá também de contar a história do mundo árabe. Vivemos numa época de mundos em colisão. Essa ideia de histórias colidindo umas com as outras tornou-se o meu tema.

Convencido de que é um habitante “daquele outro mundo, muito mais radiante”, Quichotte parte em peregrinação em busca da mulher amada (Salma, bela apresentadora de TV), acompanhado do filho (imaginário), Sancho. Ao longo da narrativa, Rushdie cruza a trajetória de DuChamp com seu personagem, ambos em busca do amor, o que resulta em uma escrita divertida, em que o leitor nem sempre consegue discernir o que é fato e o que é ficção. Aos 73 anos e há 21 vivendo nos Estados Unidos, Rushdie conversou com o Estadão por Zoom, quando apontou os malefícios que observa nas redes sociais e confessou a dificuldade para escrever durante o isolamento social.

Por que Quichotte é incrivelmente otimista?

Há algumas razões. Uma delas é que o contraste é quase um otimismo tolo, justamente em uma sociedade que não está em seu momento mais otimista. Eu me lembro de Cândido, de Voltaire, cujo subtítulo é “otimismo”. O livro é sobre um outro tipo de inocente, em um mundo culpado. Também penso sobre isso, é pessoal. Quem me conhece tira sarro por eu ser otimista demais. Então, acreditei que poderia pegar essa característica pessoal, de certa forma ampliá-la e torná-la mais lúdica.

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  Confira quem vai ganhar o Oscar 2021 neste domingo Confira quem vai ganhar o Oscar 2021 neste domingoA ideia é deixar o evento com “cara de filme”, não mais como um programa de TV. A premiação acontecerá com uma plateia menor e na enorme Union Station, em Los Angeles, com os indicados socializando em um ambiente aberto. Haverá palcos também em Londres e Paris, para que os europeus que não podem viajar devido às restrições possam participar. O comunicado da Academia foi misterioso: “os apresentadores representarão a si mesmos, ou… uma versão de si mesmos”.

(Arquivo) O escritor Salman Rushdie , em Paris, fotografado em 10 de setembro de 2018. "Não quero continuar me escondendo", afirma Salman Rushdie quando se refere, muitas vezes contra a sua vontade, à fatwa que pesa sobre ele há 30 anos por ter escrito "Os versos satânicos". O escritor sempre rechaçou viver recluso, mas teve que aceitar uma proteção oficial desde que o aiatolá Khomeini, primeiro guia da República Islâmica do Irã, apelou em 14 de fevereiro de 1989 o seu assassinato por seu livro julgado blasfemo pelos muçulmanos.

O escritor Salman Rushdie tem um novo livro que é inspirado pela obra de Cervantes mas com um olhar moderno. Entrevista Antena 1 / Jornal de Negócios - Uma Conversa Capital. O escritor retrata um Quixote na era dos ecrãs. Em entrevista à RTP, o autor

Quichotte é fissurado por assistir à televisão. Seríamos, então, todos Quichotte?

Não é apenas a TV em geral, mas especificamente o “reality show” que não retrata a realidade por ser muito falso e massificado. E, quando se começa a acreditar que coisas falsas são reais, é um tipo de loucura. Acho que também acontece no Brasil, mas os Estados Unidos têm vivido essa loucura por muitos anos, o que é inacreditavelmente prejudicial. Cervantes se firmou com a loucura de seus personagens, mas tinha propósitos sérios sob isso. E senti quase a mesma coisa. Eu queria me divertir com o livro, mas, nas entrelinhas, pretendia mostrar que é realmente perigoso quando uma sociedade perde a habilidade de distinguir entre verdade ou mentira.

Parece que escrever esse livro se tornou um exercício divertido...

Sim, tornou-se divertido. Na verdade, demorei para entender como fazer, como seria. E, para mim, a questão da voz tonal é sempre muito crucial. Preciso entender exatamente que linguagem o livro vai usar. E, uma vez compreendida, o processo começa. É um livro um tanto prazeroso, espero. E também me permitiu prestar minhas homenagens a muitas formas de literatura. Há alguns tipos de pequenas referências ao (dramaturgo romeno Eugène) Ionesco e a outros tantos escritores. Foi divertido, pois nunca havia feito isso tão abertamente. Foi também algo assustador, que percebi logo ao introduzir a segunda linha narrativa – eu tinha noção do que deveria acontecer no livro, gradualmente as linhas narrativas deveriam se juntar e, ao final, eu queria que o leitor pensasse: “OK, é uma única história e tem sido assim o tempo todo… não são duas histórias diferentes”. Durante a maior parte do tempo, eu não sabia como fazer isso. Era preciso, mas estava com muitas dúvidas. Finalmente – quero evitar spoiler –, pensei “ah, entendi! O caminho é esse”, o que foi um momento muito empolgante. Esse livro se revelou para mim gradualmente. Escrevê-lo foi como um processo de descobri-lo.

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O escritor esteve em Portugal para participar no festival de Óbidos. Em Lisboa, sem se armar em turista, andou a percorrer as capelinhas literárias: Camões, Pessoa e Saramago. Pronunciar o nome do escritor Salman Rushdie é recordar a fatwa que o amaldiçoou de morte por ter publicado o romance Versículos Satânicos. Vivemos num tempo em que as séries de televisão são muito interessantes e há muita gente que me pede para desenvolver alguma coisa nessa área. Eu estou interessado, mesmo que não saiba o que fazer.

#Matrix #Realidade #Simulada #EiNerd Vivemos mesmo em uma Matrix?

Como é possível utilizar a ficção como um modo de tentar entender o momento presente?

Acho que essa é apenas a forma como meu cérebro funciona, sabe? Vivo rodeado de livros, que se tornam parte da minha forma de entender o mundo. Espero que isso seja algo que os livros possam fazer pelos leitores hoje, que se tornem uma parte da explicação. Se leio Kafka, entendo algo sobre o mundo moderno. Senti o mesmo a respeito de Cervantes. Em 2016, houve o duplo aniversário de 400 anos de morte de Cervantes e Shakespeare, e fui convidado a escrever algo sobre. Naquele momento, eu já pensava sobre esse livro, mas não havia qualquer tipo de elemento quixotesco, seria simplesmente um romance sobre viagem pela América, como um romance de estrada. Então, quando reli romances de Cervantes depois de muito tempo, pensei: “é exatamente isso que preciso para fazer sentido com o que estou tentando criar”. Então, foi apenas um feliz acidente, eu não estava planejando o livro por causa de Cervantes.

Há um momento no livro em que o senhor diz que humanos preferem ficção a fatos. Qual é seu sentimento sobre isso?

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Bem, apenas acho que as pessoas amam histórias. E isso acontece desde muito cedo, crianças amam histórias. E, quer saber? As melhores histórias são as inventadas. Aprendemos muito rapidamente, descobrimos por meio de livros e de nossos pais e mães nos contando histórias, que as tramas fantásticas são mais interessantes que as noticiadas por jornais e TV. Existe um desejo genuíno por histórias nos seres humanos. Eu fui um grande leitor em minha infância, vivia com o nariz enfiado no livro – sem jogar futebol, mas lendo. Espero que exista gente suficiente por aí que concorde. Suspeito que sim, do contrário as pessoas não comprariam romances, e felizmente elas compram.

No livro, o senhor faz alusão às mídias sociais ao dizer que a vida tornou-se uma série de fotos evanescentes publicadas todos os dias. Como vê o comportamento dessa geração?

Eu me preocupo com isso. É como ter uma cultura que não tem história. As imagens de hoje terão desaparecido amanhã. Com isso, não se tem memória de si mesmo, não há como olhar para trás e entender seu desenvolvimento. Mesmo antes da invenção de coisas como Snapchat, eu já acreditava que vivemos em uma cultura sem uma memória. As pessoas não lembram de coisas de cinco minutos atrás. Esse é o verdadeiro problema. No meu entendimento, a história, a compreensão do passado é um jeito incrível de entender os motivos que nos levaram a chegar até aqui. Então, viver em um mundo em que é fácil se esquecer o ontem preserva um tipo de inocência interminável, porque você nunca precisa saber coisa alguma sobre você mesmo ou sobre os outros, exceto o que te contam nesse momento especificamente. Há um grave problema aí. Eu acredito em continuidade. Como escritor, textos muito antigos sempre foram inspiradores. Retorno sempre aos clássicos indianos, gregos etc. São um tipo de memória da imaginação humana. Então, eu me preocupo com a criação de um ambiente completamente transitório, onde nada permanece, tudo desaparece. Isso torna mais simples as vidas das pessoas, o que nem sempre é bom.

Manuscrito de “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, é publicado por editora francesa especializada

  Manuscrito de “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, é publicado por editora francesa especializada A nordestina Macabéa - e suas desventuras como datilógrafa no Rio de Janeiro - acaba de ganhar as ruas de Paris. A responsável pela proeza é a editora francesa Les Saint Pères especializada na publicação de manuscritos de grandes nomes da literatura e da ciência mundial. Restaurados, os rascunhos de Clarice Lispector deram origem a uma bela edição de luxo, um livro-objeto fenomenal de grandes proporções. O lançamento figura a partir desta segunda-feira (3) no catálogo da Les Saint Pères, num lançamento conjunto na França, Portugal e no Brasil.

Tem sido difícil escrever desde o início do isolamento?

Sim. Durante algum tempo, não pude fazer nada interessante. Tentei dois projetos diferentes e os abandonei – apenas pensei que não eram reais, não eram bons. E foi assim por um bom tempo. Só nos últimos seis meses é que consegui retomar e começar um novo livro. Ainda assim, acredito que escrever tem sido muito mais lento que antes. Tenho escrito apenas metade do que costumo escrever. Acho que todos estamos sendo…como eu diria?... tão distraídos por essa tragédia, e parece que, quando a escala da calamidade é tão grande, tudo o que se pode fazer é prestar atenção, e não é, de fato, um tempo para desaparecer em sua própria imaginação. É assim que me pareceu por um tempo. Agora, estou quase me encontrando novamente.

Leia um trecho de 'Quichotte', de Salman Rushdie

“Era uma vez um homem de origem indiana que gostava de viajar e morou numa série de endereços temporários nos Estados Unidos da América. Já avançado em anos e sem estar em plena posse de sua capacidade mental, ele tinha uma paixão insana pela televisão, razão pela qual passara boa parte da vida sob a luz amarelada de quartos de motéis ordinários diante de uma tela, sofrendo, por causa disso, de uma forma peculiar de dano cerebral. Devorava os programas matinais, os programas da tarde, os talk shows de final da noite, novelas, sitcoms, cinebiografias, dramas de hospital, seriados policiais, séries de vampiros e zumbis, as tragédias de donas de casa de Atlanta, Nova Jersey, Beverly Hills e Nova York, os romances e brigas de herdeiras milionárias de cadeias de hotéis e pretensos emires, as peripécias sexuais de indivíduos que tinham ficado famosos por se apresentarem alegremente desnudos...”

O esquecido papel de Napoleão na escravidão .
No bicentenário da morte de Napoleão Bonaparte, celebrado por muitos na França como herói, discute-se um lado pouco lembrado de seu legado: em 1802, ele restabeleceu a escravidão, oito anos após ser abolida pelo país. © imago images Quando se ouve falar sobre Napoleão, a maioria das pessoas pensa no grande império e nas vitórias militares da França Como parte das comemorações do bicentenário da morte de Napoleão Bonaparte, que se completa nesta quarta-feira (05/05), o centro cultural Grande Halle de la Villete, em Paris, está apresentando uma grande exposição sobre o ex-imperador francês.

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