Mundo 28 mulheres condenadas a enterrar seus filhos em pleno Dia das Mães

21:16  09 maio  2021
21:16  09 maio  2021 Fonte:   brasil.elpais.com

Cufa arrecada 400 toneladas de alimentos para mães da favela

  Cufa arrecada 400 toneladas de alimentos para mães da favela A distribuição de cestas básicas e material de higiene foi feita no Mineirão para 60 mil pessoas, número suficiente para lotar o estádio © CUFA/Divulgação

Quinta-feira, 6 de maio de 2021, 28 vidas foram tiradas, arrancadas de suas mães, esposas, filhos e amigos. Apagaram-se as histórias e sonhos de 28 pessoas em uma operação fracassada, que denuncia a falência de uma política de segurança pública baseada na maldita guerra às drogas.

Familiares no funeral de Cleyton da Silva Freitas, 26 anos, um dos mortos na última quinta-feira no Jacarezinho, no cemitério de Inhaúma, no Rio, no sábado. © Bruna Prado (AP) Familiares no funeral de Cleyton da Silva Freitas, 26 anos, um dos mortos na última quinta-feira no Jacarezinho, no cemitério de Inhaúma, no Rio, no sábado.

Enterrar um filho é algo contra a ordem natural das coisas. Gera uma dor insuportável que se estende por toda a vida. Há 15 anos tive meu filho arrancado de mim pelo Estado e essa afirmação é fruto da minha trágica vivência.

Paulo Gustavo acordou e interagiu com o marido antes de piora

  Paulo Gustavo acordou e interagiu com o marido antes de piora Ator está em estado grave no Hospital Copa Star, no RJPaulo Gustavo apresentou piora em seu estado de saúde, no último domingo (2), no Hospital Copa Star, no Rio de Janeiro. O ator, que está internado desde o dia 13 de março, porém, havia mostrado uma melhora significativa em seu quadro no fim de semana, tendo acordado e até interagido com o marido, o médico Thales Bretas.

Para nós o Dia das Mães é uma data de muitas lembranças e sofrimento. Não por acaso, o movimento de mães de vítimas do Estado escolheu a semana que se segue a esta data como o período de mobilização e luta contra a genocídio da juventude negra e outras formas de violência do Estado.

E é por isso que saber que 28 mães devem enterrar seus filhos neste Dia das Mães me causa tanta dor. Sinto que essas mulheres nunca mais poderão ter um Dia das Mães alegre com seus outros filhos. Se, para mim, que não enterrei meu filho nesta data, ela é acompanhada de dor, para essas mães será quase insuportável, até porque a resposta das autoridades do Governo do Estado foi de legitimação e comemoração desta tragédia.

A chacina do Jacarezinho já é a ação policial mais violenta da história do Estado do Rio de Janeiro. Sob a justificativa de cumprimento de 21 mandados de prisão, a Polícia Civil do Rio matou 27 pessoas e teve um de seus agentes morto numa operação que levou terror a milhares de moradores e colocou o Brasil nas manchetes de jornais ao redor do mundo.

Ingrid Guimarães diz que Paulo Gustavo temia demais a Covid: “Se cuidava muito”

  Ingrid Guimarães diz que Paulo Gustavo temia demais a Covid: “Se cuidava muito” Humorista se isolou em sua casa para evitar a doençaLEIA TAMBÉM: Ingrid Guimarães faz revelação sobre Paulo Gustavo: “Ele estava paranoico”

Os registros em vídeos e fotos dos locais em que ocorreram as execuções denunciam a completa desumanização com que o Estado brasileiro genocida trata a população negra, pobre e periférica. Poças de sangue por toda a favela, casas cravejadas por balas de diversos calibres, quartos de crianças que mais pareciam cenário de filme de terror. Cenas que em qualquer lugar do mundo levariam à demissão da cúpula policial e promoveriam uma reforma profunda da polícia, mas que no Brasil são comemoradas pelas autoridades, revelando que estão pouco se lixando para os traumas causados à população e a dor imposta às dezenas de famílias atingidas.

Esse comportamento evidencia que o racismo estrutural, fundado na tradição escravocrata e excludente do Estado brasileiro, impera. Basta olhar para as imagens da porta do IML no dia seguinte à chacina: famílias inteiras, quase todas negras, desesperadas em busca da liberação dos corpos. São os descendentes de pessoas escravizadas que compõem o grupo dos legitimados a morrer e, se tratando do Jacarezinho, é preciso trazer isso à tona, pois seu território abrigou um quilombo urbano. Quando a cúpula da Polícia Civil afirma, antes de qualquer diligência investigativa, que não há execuções em uma operação com 28 mortes em decorrência de intervenção policial, ela manda o recado de que não haverá apuração imparcial e que as mortes de jovens, negros, pobres e periféricos são aceitáveis.

17/05/2021 - Imagens do dia

  17/05/2021 - Imagens do dia Galeria de Fotos

Mas eles não contavam com a reação imediata e efetiva de movimentos sociais, organizações da sociedade civil e instituições que, num mesmo bonde, estiveram no mesmo dia no Jacarezinho e puderam documentar o ocorrido. Da mesma forma, a mobilização puxada pelos movimentos negro e de favelas promoveu uma grande caminhada no Jacarezinho na última sexta, dia seguinte à chacina. Nesta ocasião, liderados pelos movimentos de mães de vítimas deste Estado genocida, gritávamos em uma só voz: NÃO FOI OPERAÇÃO, FOI CHACINA!

O resultado desta ação desastrosa é termos, em pleno Dia das Mães, uma mãe de policial em luto, chorando a perda de seu filho, e outras 27 velando e enterrando os seus.

Monica Cunha é técnica em educação social e faz parte da Coalizão Negra por Direitos e da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia do Rio. Em 2003 foi co-fundadora o Movimento Moleque, uma organização para mães de crianças que foram ameaçadas, atacadas ou mortas pela polícia.

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Dor e lágrimas marcam enterro de vítimas de ação policial no Jacarezinho .
Com lágrimas e orações, os parentes de algumas das 28 pessoas mortas há dois dias durante uma sangrenta operação policial na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, começaram a enterrar seus entes queridos neste sábado (8), véspera do Dia das Mães. “Quero justiça, peço justiça para todos, por todos, nós somos mães, eles são pais de família, então nós estamos sofrendo”, declarou à AFP Edeluze, de 67 anos, ao enterrar o filho Márcio Bezerra, que deixou três filhos e dois netos.“Os policiais subiram [na comunidade] matando os meninos, isso é uma crueldade”, denunciou Miriam Bezerra no túmulo do irmão.

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