Mundo Por que Brasil ainda não pode relaxar uso de máscaras como os EUA fizeram

07:06  11 junho  2021
07:06  11 junho  2021 Fonte:   bbc.com

Veja os principais momentos da CPI da Covid até agora

  Veja os principais momentos da CPI da Covid até agora Muita coisa aconteceu desde que Comissão Parlamentar de Inquérito começou em 27 de abril. Para quem não conseguiu acompanhar tudo, a BBC News Brasil fez uma seleção dos principais momentos até agora.Também teve diversas revelações sobre ações e omissões do governo federal durante a pandemia, testemunhas caindo em contradição, bate-boca entre parlamentares, senadores governistas fazendo perguntas com base em notícias falsas, oposição acusando depoentes de mentir e até um requerimento de convocação do Presidente da República.

Nos EUA , foi desobrigado o uso de máscara na maior parte dos lugares, mas situação lá é 'absolutamente incomparável' ao Brasil , diz médico. Amplamente recomendada por cientistas e alvo de desdém do presidente ao longo da pandemia, a máscara facial contra a covid-19 poderá ter seu Quando essa taxa é maior do 1, significa que o vírus está se espalhando de maneira exponencial, mas a pandemia só é considerada controlada quando o índice é mantido abaixo de 1 por algumas semanas — o que não foi atingido pelo Brasil ainda . Ainda há também vários Estados com taxa acima de 1.

Ainda não há também um posicionamento do ministro Queiroga, que nesta semana defendeu com afinco as medidas não farmacológicas para a contenção da pandemia, como o uso de máscaras , em seu segundo depoimento à CPI da Pandemia no Senado. O alerta foi feito no dia seguinte à decisão dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA que liberaram pessoas totalmente vacinadas da obrigatoriedade do uso de máscara ao ar livre e também em alguns ambientes internos.

Amplamente recomendada por cientistas e alvo de desdém do presidente ao longo da pandemia, a máscara facial contra a covid-19 poderá ter seu uso flexibilizado no Brasil, segundo anunciou Jair Bolsonaro nesta quinta-feira (10/6).

Nos EUA, foi desobrigado o uso de máscara na maior parte dos lugares, mas situação lá é 'absolutamente incomparável' ao Brasil, diz médico © Getty Images Nos EUA, foi desobrigado o uso de máscara na maior parte dos lugares, mas situação lá é 'absolutamente incomparável' ao Brasil, diz médico

No mesmo dia em que o país registrou mais 2.504 mortes pela doença nas últimas 24 horas, chegando a um total de 482.019 óbitos, Bolsonaro afirmou em um evento: "Nosso ministro (da Saúde) vai ultimar um parecer visando a desobrigar o uso de máscara por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram contaminados."

Com infecções em queda, Alemanha discute futuro das máscaras

  Com infecções em queda, Alemanha discute futuro das máscaras País registra menor número de casos diários de covid-19 em nove meses, e ministro da Saúde defende flexibilização gradual da obrigatoriedade do uso de máscaras, começando por ambientes externos. © Frank Hoermann/Sven Simon/picture alliance A Alemanha registrou nesta segunda-feira (14/06) o menor número diário de infecções pelo coronavírus no país em quase nove meses, e autoridades vêm discutindo a possibilidade de afrouxar as regras para uso de máscaras.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou hoje que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, deve publicar um parecer para desobrigar o uso de máscara por parte daqueles que já foram vacinados ou contraíram a covid-19 e se recuperaram, contrariando as recomendações de autoridades sanitárias do mundo todo. Para tirar esse símbolo, que obviamente tem a sua utilidade para quem está infectado", disse Bolsonaro em evento em Brasília , sendo respondido com aplausos.

O anúncio, nos EUA , de um novo acordo de livre-comércio entre EUA , Canadá e México acabou servindo de oportunidade para o presidente americano, Donald Trump, alfinetar o Brasil e sua política comercial. Ao dizer a um jornalista que a Índia cobra "tarifas tremendas" dos EUA , Trump Um relatório de março do Banco Mundial afirma que alguns dos fatores por trás da baixa competitividade brasileira podem ser "a falta de concorrência interna, graças a um ambiente de negócios que favorece empresas já estabelecidas, dificulta a inovação e a entrada de novas empresas; e a externa, devido

Horas depois, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou que o presidente pediu um estudo sobre a flexibilização do uso de máscaras, conforme avança a vacinação no país.

O presidente já apareceu em diversas ocasiões sem ele próprio usar a máscara, inclusive em aglomerações e viagens pelo Brasil, e já deu declarações questionando os benefícios do item.

Outras partes do mundo que já chegaram a um controle da doença e percentual de vacinados bem maiores do que o Brasil estão discutindo o relaxamento do uso de máscaras para quem foi imunizado — e mesmo assim tais medidas estão sendo alvo de debates e críticas por boa parte da comunidade científica.

O Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos anunciou em abril que pessoas com a vacinação completa podem deixar de usar máscaras na maioria dos lugares — com exceção por exemplo da rede de transportes, hospitais e prisões. O governo britânico também está conduzindo alguns estudos para avaliar a possível flexibilização de medidas preventivas contra a covid-19, incluindo a exigência de máscaras.

Saiba por que é preciso ignorar Bolsonaro e continuar a usar máscara mesmo vacinado contra a covid-19

  Saiba por que é preciso ignorar Bolsonaro e continuar a usar máscara mesmo vacinado contra a covid-19 A OMS e infectologistas ressaltam que, ao contrário do que afirmou o presidente, além do risco de reinfecção, pessoas imunizadas ainda podem contrair formas leves da doença e transmitir o coronavírusO presidente Jair Bolsonaro surpreendeu o país na quinta-feira ao anunciar que solicitou ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, um parecer para “desobrigar” o uso de máscaras por pessoas vacinadas contra a covid-19 ou que já tenham contraído a doença. Nesta sexta-feira, retomou a afirmação a jornalistas, mas dizendo que a decisão caberá apenas ao próprio Queiroga —que depôs pela segunda vez na terça-feira na CPI da Pandemia— e que poderia ser aplicada ou não por governadores e prefeitos.

Vale lembrar que a máscara serve como uma barreira às partículas que são despejadas por pessoas contaminadas ao falar, tossir ou espirrar e que ficam suspensas no ar por algum tempo, especialmente em ambiente fechados e sem ventilação. Também evita que as pessoas toquem a boca e o nariz com mãos Os medicamentos são divulgados como potencialmente benéficos no combate à infecção pelo novo coronavírus pelo presidente, mas ainda não existem estudos conclusivos sobre o uso desses fármacos para o tratamento da doença. A Agência Nacional de Vigilância sanitária já verificou efeitos

Isso pode fazer com que alguém exposto a esse ar se infecte", explica. "Elas são ' máscaras egoístas', porque, se eu usá -las, eu me protejo mas posso expor os outros", acrescentou. Na opinião de Ben Killingley, especialista em medicina de emergência e doenças infecciosas do University College Hospital, de Londres Como a proteção funciona apenas para quem usa a máscara , os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), que meses atrás precederam a OSM ao recomendar o uso de máscaras , também alertou contra ouso do equipamento com válvula.

"Os Estados Unidos e a Europa começaram a discutir isso com baixos níveis de contágio, mortes e variantes circulantes. É outra realidade, absolutamente incomparável com o Brasil", diz o médico Estevão Urbano, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Na pandemia de coronavírus, Bolsonaro já apareceu sem máscara em diversas ocasiões © EVARISTO SA/AFP Na pandemia de coronavírus, Bolsonaro já apareceu sem máscara em diversas ocasiões

O médico epidemiologista Antônio Augusto Moura da Silva, professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), compartilha da perplexidade do colega.

"Lá fora, a decisão foi tomada baseada na alta eficácia das vacinas, uma cobertura vacinal que já chegou a 50%, e a circulação viral baixa. Há um controle muito maior do que o nosso. No Brasil, a doença está solta", diz Silva, acrescentado que a medida anunciada pelo presidente "não faz sentido do ponto de vista técnico".

Vamos aos indicadores citados pelos médicos.

Bolsonaro agora diz que quem decide sobre desobrigar uso de máscaras é prefeito e governador

  Bolsonaro agora diz que quem decide sobre desobrigar uso de máscaras é prefeito e governador O presidente afirmou que o pedido feito ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, é para que se elabore um estudo sobre a possibilidade de pessoas vacinadas ou já infectadas dispensarem a proteção . © Dida Sampaio/Estadão Na quinta-feira, em evento no Palácio do Planalto, Bolsonaro disse ter 'ultimado' o ministro da Saúde para publicar um parecer sobre o uso de máscaras para quem já foi vacinado ou já foi infectado "Ontem pedi para o ministro da Saúde fazer um estudo sobre máscara. Quem já foi infectado e quem tomou a vacina não precisa usar máscara. Mas quem vai decidir é ele, vai dar um parecer.

BRASÍLIA (Reuters) – O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira que o ministro da Saúde finaliza um parecer que irá desobrigar o uso de máscaras àqueles que já estiverem vacinados ou ainda a quem já tiver contraído a Covid-19. Bolsonaro já participou de eventos públicos em que havia a aglomeração de pessoas sem o uso da proteção. Mas o ministro da Saúde, por outro lado, vem defendendo o uso da máscara e de outras medidas não farmacológicas, como o distanciamento físico, como instrumentos de prevenção e contenção da disseminação do coronavírus e externou

Para quem não conseguiu acompanhar a intensa movimentação, a BBC News Brasil fez uma seleção dos principais momentos da CPI e das reportagens e análises sobre ela publicadas no nosso site. Os senadores consideraram que o depoimento de Pazuello, apesar de longo, não esclareceu todas as dúvidas sobre a atuação do governo na pandemia e o ministro foi convocado para depor novamente. A data do segundo depoimento ainda não está marcada. "Capitã cloroquina" admitiu ser autora de áudio com notícias falsas.

'Doença solta': alta mortalidade, contágio e circulação de variantes

Nesta quinta-feira (10), o Brasil registrou uma média de 1.804 mortes diárias pela covid-19 na última semana. É um número abaixo do recorde já registrado nesse indicador — média móvel de 3.124 óbitos, registrado em 12 de abril de 2021 —, mas em um patamar nunca atingido em 2020, o primeiro ano da pandemia.

O mais recente Boletim Observatório Covid-19, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), publicado no dia 9, afirmou que a pandemia no Brasil "se configura como de alto risco", com ligeira queda no número de óbitos, mas manutenção da transmissão do vírus e taxa de ocupação de leitos muito elevada na maioria dos Estados e capitais: "Vinte estados e o Distrito Federal, bem como 17 capitais, encontram-se com taxas de ocupação iguais ou superiores a 80%."

A taxa de transmissão do vírus no país também teve uma ligeira queda, segundo a universidade Imperial College. Ela está em 0,99, e há duas semanas, era de 1,02. Quando essa taxa é maior do 1, significa que o vírus está se espalhando de maneira exponencial, mas a pandemia só é considerada controlada quando o índice é mantido abaixo de 1 por algumas semanas — o que não foi atingido pelo Brasil ainda. Ainda há também vários Estados com taxa acima de 1.

'Não faz o menor sentido', diz infectologista sobre desobrigação de máscara

  'Não faz o menor sentido', diz infectologista sobre desobrigação de máscara Carlos Starling, que integra o Comitê de Enfrentamento à COVID-19 da Prefeitura de Belo Horizonte, criticou a fala do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) defendeu a não obrigatoriedade das máscaras para pessoas vacinadas ou que já contraíram a COVID-19. © Juarez Rodrigues/EM/D.A Press Médico infectologista Carlos Starling, do Comitê de Enfrentamento à COVID-19 da Prefeitura de Belo Horizonte “Acabei de conversar com o Queiroga e ele vai fazer um parecer para desobrigar o uso de máscaras para pessoas vacinadas ou que já contraíram o vírus”, explicou Bolsonaro.

Soma-se a esses fatores preocupantes a circulação de variantes no país.

"O Brasil tem particularmente hoje infecções por variantes. Elas representam de 85 a 90% das novas infecções", aponta Estevão Urbano, da SBI.

O presidente Bolsonaro afirmou que seu governo estuda desobrigar o uso de máscaras entre pessoas que já tiveram a infecção ou que já foram vacinadas. Os fatores acima mencionados influenciariam em ambos os casos.

No primeiro, uma pessoa que já teve covid-19 e deixa de usar máscara, em um cenário de circulação significativa do vírus e suas variantes, está sujeita à reinfecção — e potencial transmissão a outras pessoas.

"A gente sabe que ter tido covid diminui a probabilidade mas não elimina o risco de ter a doença de novo. E a gente já sabe que a variante P.1 é capaz de reinfectar quem já foi infectado. Existem estimativas de que no surto em Manaus do fim do ano, e início do atual, cerca de 30% das infecções com a P.1eram reinfecções", aponta Antônio Augusto Moura da Silva.

"Todo mundo que está infectado corre o risco de transmitir. E há os assintomáticos, que têm risco de menor de transmitir, mas podem transmitir", lembra o epidemiologista, acrescentando que o uso de máscaras no Brasil hoje já deixa a desejar entre a população.

Baixa cobertura vacinal

O CDC flexibilizou o uso de máscaras depois que cerca de metade dos americanos recebeu a primeira dose da vacina. Até 19 de maio, cerca de 37% da população dos EUA tinha recebido a vacinação completa, e cerca de 60% dos adultos americanos, pelo menos a primeira dose.

Por que máscaras são necessárias mesmo para vacinados e pessoas que já foram infectadas?

  Por que máscaras são necessárias mesmo para vacinados e pessoas que já foram infectadas? Especialistas explicam que, mesmo que parte da população já esteja com anticorpos contra a covid-19, proteção facial é fundamental para controlar transmissão do vírus. Presidente solicitou parecer para desobrigar uso de máscarasNesta quinta-feira, 10, Bolsonaro afirmou ter solicitado um parecer ao Ministério da Saúde para que desobrigasse o uso de máscaras a todos os brasileiros que já estejam vacinados ou tenham contraído o vírus. "É uma posição próxima de criminosa. Quem já teve a doença, está provado, pode ter a doença novamente.

Já no Brasil, segundo um consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde, 11% da população recebeu a imunização completa, e 24,9% ao menos a primeira dose.

Os médicos entrevistados pela BBC News Brasil lembram que as vacinas administradas no Brasil, principalmente a CoronaVac, a mais numerosa no país, têm percentuais altos de proteção contra gravidade e mortalidade pela covid-19. Já a margem de proteção contra a infecção é menor, então mesmo vacinadas, é previsto que um número importante de pessoas ainda vá ter a doença.

Por isso, desobrigá-las a usar a máscara seria mais uma vez imprudente.

"Você tem uma parcela importante de vacinados que ainda pode se infectar e transmitir. Liberar a ausência de máscara para esses grupos vai facilitar muito a perpetuação da circulação viral, isso não vai acabar nunca", diz Estevão Urbano. "E tem também a questão de qual é a eficácia da vacina contra as variantes."

"Não tem a mínima chance dessa ser uma medida embasada cientificamente", completa o infectologista.

Discussões no exterior

Os especialistas acrescentam que, no exterior, autoridades e cientistas estão começando a testar na vida real a validade da ideia de "imunidade coletiva", conhecida também como de rebanho — quando o número de pessoas com imunidade contra um patógeno chega a um patamar tal que a doença é controlada.

Isso porque alguns países estão atingindo um número considerável de pessoas vacinadas e de baixa circulação do vírus, uma oportunidade para verificar a hipótese da imunidade coletiva.

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Os que chegaram lá, como os EUA, também estão lidando com problemas práticos. Por exemplo, como saber se um cliente ao seu lado no supermercado realmente tomou as duas doses de vacina, ou simplesmente deixou de usar a máscara por outro motivo, mesmo não imunizado?

Autoridades americanas afastaram a proposta de um "passaporte de vacina" para provar a imunização de uma pessoa, argumentando que isso representaria uma violação de privacidade.

Com isso, governos e empresas locais estão decidindo se e como vão exigir alguma forma de comprovação. Redes importantes, como Walmart e Target, têm permitido que os clientes fiquem sem máscara sem este requisito. Já alguns shows e eventos têm sim exigido o histórico de vacinação.

Há também a preocupação de que o relaxamento com a máscara gere um sentimento de liberação geral, incluindo outras medidas preventivas contra o coronavírus.

"Pode haver uma interpretação equivocada ou uma sensação de liberdade do tipo 'não preciso fazer nada disso'", afirmou à BBC Gabor Kelen, chefe do departamento de medicina de emergência da Universidade Johns Hopkins, nos EUA.

"Mas acho que o CDC percebeu que, se não adotassem medidas que parecessem razoáveis para as pessoas, eles meio que perderam a influência nas regras fazem sentido."

"Se as regras não fizerem sentido, as pessoas não seguirão mais o que o CDC diz", completou Kelen.

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