Mundo Exportadores de commodities são principal exposição do Brasil ao 'risco Evergrande'

18:01  17 setembro  2021
18:01  17 setembro  2021 Fonte:   estadao.com.br

Cresce temor de instabilidade financeira com eventual falência de grupo imobiliário chinês

  Cresce temor de instabilidade financeira com eventual falência de grupo imobiliário chinês O valor das ações e de títulos do conglomerado imobiliário chinês Evergrande, fortemente endividado, continuaram a despencar nesta quinta-feira (9) nos mercados asiáticos, depois que circularam informações de que a empresa deixará de pagar em breve seus empréstimos bancários e poderá suspender o pagamento de juros sobre determinados produtos financeiros de sua área de gestão de patrimônio. O caso é monitorado de perto pelas autoridades financeiras em todo o mundo, devido à dívida colossal de 1,970 bilhão de yuans, cerca de 260 bilhões de euros, acumulada pela Evergrande.

Quer se manter informado, ter acesso a mais de 60 colunistas e reportagens exclusivas?Assine o Estadão aqui!

Os novos sinais de problemas financeiros da incorporadora chinesa Evergrande colocam o tema no radar do mercado brasileiro sobretudo pelos potenciais impactos às empresas de commodities (produtos básicos, como alimentos, minério de ferro e petróleo, cotados em dólar). A gigante imobiliária viu seus papéis caírem mais de 6% na quinta-feira, 16, após informar que não vai conseguir fazer o pagamento de juros próximos a vencer.

O tombo foi acompanhado pela queda dos papéis de outras incorporadoras e influenciou o preço do minério de ferro, muito consumido pelas empresas de construção. Para os analistas, a queda no preço da commodity, que despencou 8% na quinta-feira, pode se aprofundar, para menos de US$ 100, mas o impacto deve ser pontual e a expectativa é que o valor suba novamente.

Sonhos da imobiliária Evergrande viram pesadelo para os compradores chineses

  Sonhos da imobiliária Evergrande viram pesadelo para os compradores chineses As noites sem dormir viraram uma rotina para Ji Wenchen, meio ano depois de pagar um depósito de 100.000 dólares à gigante chinesa do setor imobiliário Evergrande, que enfrenta uma grave crise, por um apartamento que ainda não foi concluído. Em março ele entregou o dinheiro ao grupo, mas ainda não recebeu os documentos que a certificam como proprietária. "Mal consigo comer ou dormir", afirma a mulher de 30 anos. "Meu nome ainda não estáEm março ele entregou o dinheiro ao grupo, mas ainda não recebeu os documentos que a certificam como proprietária.

O mercado imobiliário é um dos principais motores da economia chinesa, com uma participação de quase um quarto do Produto Interno Bruto (PIB). A Evergrande é o segundo maior nome do setor e acumula dívidas de aproximadamente US$ 300 bilhões. Os problemas de liquidez da empresa embutem o temor de uma desaceleração mais profunda do setor imobiliário na China e de que o ritmo de crescimento esteja perdendo força, com impactos nos principais fornecedores de matéria prima pelo mundo.

Rafael Foscarini, diretor de Estratégia da Belo Investment Research, diz que o preço do minério de ferro está mais relacionado à questão política na China e que, se a incorporadora conseguir rolar a sua dívida na próxima semana, o preço da commodity sobe de novo. O preço do minério terminou a quinta-feira cotado a US$ 107,21 a tonelada, no menor nível desde 27 de julho do ano passado, a caminho para a maior sequência de quedas em mais de três anos, de acordo com a Genial Investimentos.

A crise do mercado imobiliário da chinesa Evergrande desencadeia medo de ‘efeito contágio’

  A crise do mercado imobiliário da chinesa Evergrande desencadeia medo de ‘efeito contágio’ Mercados temem que a gigante da construção, a mais endividada do planeta, possa ir à falência antes dos vencimentos milionários desta semanaOficialmente, a Evergrande acumula dívidas no valor de mais de 300 bilhões de dólares (cerca de 1,61 trilhão de reais) —2% do PIB chinês, ou o tamanho de toda a economia sul-africana— e tem que pagar juros de 84 milhões de dólares na quinta-feira (450 milhões de reais) de seus títulos offshore, e outros 47,5 milhões de dólares (cerca 255 milhões de reais) na quarta-feira, dia 29.

"Houve precificação de queda da demanda e, por isso, o preço da commodity caiu. Mas o mercado acionário é exagerado tanto para cima quanto para baixo. Então, se a empresa não quebrar, o papel pode voltar a subir, levando para cima também o preço do minério de ferro", diz Foscarini.

Para Roberto Motta, chefe da mesa de derivativos da Genial, a situação vem se deteriorando e o principal impacto para o Brasil se dá pela queda no preço do minério. "A principal questão é que o mercado imobiliário na China tem um peso muito importante no PIB. Não é mais um problema isolado da Evergrande", afirma. "Quanto mais tempo a China demorar par achar uma solução, maior será a deterioração num dos setores mais importantes da China."

Segundo Motta, um eventual colapso da Evergrande poderia trazer impacto ainda no fluxo de recursos de investidores estrangeiros para os países emergentes.

Os novos indícios de dificuldade da gigante chinesa colocaram em dúvida se haveria o risco de uma eventual quebra provocar o mesmo efeito do colapso do Lehman Brothers na crise de 2008. A maior parte dos analistas descarta esse risco porque acredita numa intervenção do governo chinês. O mais provável é que as autoridades intercedam para administrar uma situação de calote organizado, em que as perdas são distribuídas gradualmente e de forma ordenada.

Riscos de calote da China Evergrande mudam foco para possível resgate pelo governo chinês

  Riscos de calote da China Evergrande mudam foco para possível resgate pelo governo chinês Riscos de calote da China Evergrande mudam foco para possível resgate pelo governo chinêsHONG KONG/NOVA YORK (Reuters) - Temores persistentes de calote ofuscaram os esforços do presidente do China Evergrande Group para melhorar a confiança na empresa nesta terça-feira, enquanto o governo chinês não deu sinais de que vai intervir para evitar qualquer efeito dominó na economia global.

"A China deve absorver isso, não tem interesse que isso (quebra) aconteça com uma empresa de grande porte. Se isso acontecesse, o impacto seria muito grande", afirma Luiz Fernando Carvalho, estrategista-chefe da Ativa Investimentos.

Carvalho acredita, portanto, numa situação de queda temporária sobre o preço das commodities. Ele lembra que, do outro lado, pesam como fatores positivos a reabertura de economias pelo mundo. "Pode ser um respiro de ajuste, mas commodities permanecerão pressionadas porque as cadeias de fornecimento ainda estão sendo retomadas."


Video: Central 98 16/09/21 (Dailymotion)

Diminuição na produção da Vale

Foscarini diz que a decisão da Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, de reduzir a sua produção no ano que vem para 370 mil toneladas, contra previsão anterior de 400 mil toneladas, também deve ajudar a elevar o preço da commodity. Procurada, a Vale preferiu não se manifestar. Os papéis da mineradora brasileira caíram mais de 4% na quinta-feira.

"A Austrália produz mais do que o Brasil, mas a Vale não deixa de ser um importante player do setor. Existem vários fatores puxando o preço para cima e para baixo. Então, é importante monitorar o curto prazo e as perspectivas de médio e longo prazos", afirma Foscarini.

Crise na Evergrande preocupa os mercados mundiais

  Crise na Evergrande preocupa os mercados mundiais Segundo maior conglomerado de construção civil da China acumula dívidas e provoca temores de calote que pode gerar efeito cascata internacional, afetando outros setores, bancos e investidores ao redor do planeta. © Xing Yun/Costfoto /Xing Yun/picture alliance Prédio da Evergrande, em Shangai: dívidas do grupo vão de 100 a 300 bilhões de euros Nesses dias, Evergrande é sinônimo de um possível fracasso – um fracasso gigantesco. Porque o drama em torno da imobiliária chinesa está se agravando. Na terça-feira, as ações da Evergrande continuavam em queda acentuada na bolsa de valores de Hong Kong.

Pedro Galdi, analista da Mirae Asset, concorda que a queda do minério de ferro continua mais associada à parada de uma parcela das siderúrgicas na China para reduzir a poluição e principalmente pelo fato de que a economia mundial está dando sinais de fraqueza com o ressurgimento da covid-19. Ele explica que os estoques de minério de ferro na China estão um pouco acima do normal e quando a produção de aço voltar o preço da commodity vai subir novamente.

"A dificuldade é dizer quando, mas o preço do minério vai subir novamente assim que a produção voltar à normalidade", comenta Galdi.

Galdi diz que o surgimento de novas variantes da covid-19 está atrapalhando o crescimento em várias regiões, inclusive na China, que já tem novamente cidades isoladas para não propagar o vírus. Segundo ele, isso acabou atrapalhando a economia do país. Além disso, o governo está se esforçando em atingir uma meta de reduzir a emissão de CO2, já que poluição lá está em níveis muito elevados.

"Uma forma de atender essa meta é reduzir algumas atividades, como a siderúrgica, principalmente em regiões onde a poluição se mostra mais forte. Os recentes indicadores econômicos no mundo estão mostrando uma redução do crescimento, o que justifica esta redução da siderurgia na China", comenta.

Entenda por que a Evergrande sinaliza desaceleração da China e seu impacto no Brasil

  Entenda por que a Evergrande sinaliza desaceleração da China e seu impacto no Brasil SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nos últimos dias, as atenções do mercado financeiro global se voltaram quase que exclusivamente para a China, por conta do risco trazido por uma eventual quebra do conglomerado imobiliário chinês Evergrande. No entanto, já faz algum tempo que um dos grandes responsáveis por impedir uma queda ainda mais pronunciada da economia global durante a fase mais aguda da pandemia vem dando sinais que trazem preocupações aos investidores, realçadas agora com os temores sobre a falência da Evergrande e os reflexos que poderia trazer para a economia e os mercados globais.

Foscarini lembra que os fundamentos de oferta e demanda ditam o preço no médio e longo prazo.

"No final do ano passado, a tonelada do minério, em torno US$ 150 a US$ 160, já era considerada um patamar elevado. O governo chinês já estava preocupado com esse valor porque eles importam 70% do minério de ferro do mundo e produzem 50% do aço do mundo. É quase que um monopólio na importação de minério e produção de aço", comenta o analista.

Houve um movimento de escalada forte e a tonelada do minério chegou a US$ 237. O governo chinês ficou bastante preocupado e começou a controlar mais.

"O discurso oficial é a preocupação com as metas ambientais, já que a produção de aço é bastante poluente. Mas historicamente a China é um país pouco preocupado com metas climáticas. E o que mais justifica esse tratamento com a produção de aço é a inflação do produtor, que estava muito alta. O motivo econômico, portanto, era a inflação alta do produtor que poderia ser passada, inclusive para o consumidor chinês. Então, o governo fez essa manobra de justificar as questões climáticas", explica Foscarini.

Interesse pelo mercado imobiliário

Enquanto o impacto em commodities é mais evidente, o potencial colapso da Evergrande tem pouco risco de diminuir o apetite dos investidores globais de mercado imobiliário, na visão de Fábio Bergamo, diretor da JLP Asset Management, gestora de ativos imobiliários com atuação nos EUA, Europa e Ásia. Isso porque, segundo ele, os investidores sabem diferenciar as particularidades do setor em cada país.

"O setor imobiliário é uma operação muito local. E os outros mercados ao redor do mundo, como Estados Unidos e Brasil, estão em um momento positivo", explicou.

Os problemas financeiros da Evergrande vão afetar detentores de títulos de dívidas corporativas espalhados pela China e por outros países. Mas o grande peso, avalia Bergamo, será sobre os bancos credores chineses, fornecedores locais de materiais de construção e cerca de 1,5 milhão de cidadãos que compraram imóveis na planta.

Isso vai forçar o governo chinês a pensar se intervém e evita a quebra da incorporadora, evitando o descontentamento de cidadãos locais, ou se lava as mãos, afastando o risco de grandes conglomerados acreditarem que podem especular à vontade. "Esse é um desafio para o governo de Beijing", apontou Bérgamo.

Unidade de VE da Evergrande deixa de pagar equipe e fornecedores .
A unidade de veículos elétricos (VE) da China Evergrande não pagou os salários de alguns funcionários e atrasou o pagamento de diversos fornecedores de equipamentos de fábrica, segundo pessoas a par do assunto, um sinal de que a crise de dívida da incorporadora já atinge outros segmentos do grupo imobiliário. Most Read from BloombergIstanbul Turns Taps on Old Fountains, Joining Global Push for Free DrinksIn Paris, the Wrapped Arc de Triomphe Is a Polarizing PackageHow the Child Care Crisis Became a Global Economic FiascoThe Global Housing Market Is Broken, and It’s Dividing Entire CountriesBerlin Referendum Could Determine the Future of the City’s

usr: 9
Isto é interessante!